quinta-feira, 23 de julho de 2009

As Lágrimas de POTIRA - POTIRA Essay

Há muito tempo, vivia à beira de um rio uma tribo de índios.
Itajibá e Potira, um casal muito feliz, vivia muito tranquilo quando
aconteceu uma guerra contra uma tribo vizinha.
Itajibá era um guerreiro muito forte e Potira era uma índia jovem e
formosa. Por causa da guerra, Itajibá teve que partir e, com muita tristeza
despediu-se de Potira. Na hora do adeus, Potira não chorou, mas
seguiu com os olhos cheios de tristeza a canoa que levou seu amor para
a guerra.
Todas as tardes, Potira ia até a margem do rio para esperar a volta
de Itajibá. Seu coração estava sangrando de saudade, mas a índia permanecia
calma e confiante na volta de seu amado.
Um dia, Potira recebeu a notícia da morte de Itajibá. Ele morreu
como um herói lutando contra o inimigo. Nesse dia a índia perdeu a
calma e começou a chorar. Potira passou o resto de sua vida na beira
do rio, chorando sem cessar. Suas lágrimas então, misturaram-se com
as areias brancas do rio.
Tupã, o deus dos deuses, impressionou-se muito com a tristeza da
índia, e transformou suas lágrimas em diamantes. É por isso que encontramos
os diamantes entre os cascalhos dos rios e dos regatos. O brilho
e a pureza dos diamantes lembram as lágrimas de saudade da triste

índia.

-- Agora em Tupi

Acoérame, amo abatyba pararembeype oicobé.
Itajibá Potira bé, jojabé orybeté, angatú oicó. Nhem, amyioca xupé
marana abatyba oanga.
Itajibá guaryni pyatã baé Potira cunhãmussu porangeté.
Marãressé, Itajibá ossó tekoteben. Torybeymeté Potira suí oneim.
Eré! Éreme, Potira ndoessayruã, nhem, essá rorybeymeté pupé
oimaenpitá ygara oiarassó omiaussuba maranape.
Opaim carucá ramé, Itajibá jebyra to iarõ, Potira parárembeyba coty ossó.
Sanga epiacaúba ressé tuguissema o icóbo. Nde, ebocuei cunhã
ojerobiarybo omiaussuba jebyra oié byter aribé.
Osenduba Potira reõressé Ijajibá moranduba, amóara. I marã omonhãbo sumarã xupé, naurúnamo o manõ. Oicaimaribé cunhã, có ara, oessaypy bé.
Potira omanõme coty pará rembeybape, essaybo pycaeyme opita.
Sessay, saéramo, ojemonan pará ybykuí tim namo.
Tupã, jararyara, ebocuei cunhã oribeyma ressé jemoangassieté. É
teé, sessay pupé oimoitáatãberaba. Aipóramo, assé oiuassémo itáatã
beraba pará yecoababé curú pupe Itáatãberaba endy petyngabé

oimomaenduara epiacaúba ressé oribeyma cunhã ressay.

-- só rindo...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Mosca

... Mosca. Que sei eu de moscas?
A única coisa que lembro de mosca, foi o Ricardo que me contou sobre uma mosca verde, bem grandona, varejeira, voava-lhe a cabeça, ameaçadoramente; na certa deve ter sentido um certo cheiro - Ricardo não é muito chegado aos sabonetes, muito menos aos shampoos -, e buscava esse lugar para por suas larvinhas! Ricardo precaveu-se; tirou um sapato, bastante gasto nos bicos, pelas constantes lixadas nas calçadas, “pilotando” um skate velho; estava armado... com o sapato. A bichinha continuava em seus vôos de reconhecimento. Finalmente pousou grudada na janela, ao lado da cara do Ricardo, como a espreitar a presa; falsa presa. Talvez a mosquinha tivesse com preocupações mais voltadas a perpetuação da espécie, ou mesmo no fedor do chulé de meias de duas semanas. Paft! Que exagero. Totalmente esmagada! Sem nenhuma chance de defesa; não teve tempo. Elemento surpresa; letal... Mas a vida continua... minúsculas larvas, rastejavam pela vidraça da janela; foi sua última cartada; alguns sobreviventes! Asco! Nojo! Difícil acreditar no fim trágico daquelas prematuras larvas; pior seria observar – por curiosidade instintiva – o finalizar dos movimentos das larvinhas. Triste fim. Ricardo ficou pensando por que teria feito aquilo, aquela maldade. Agora já achava realmente uma tremenda maldade. Que direito de vida neste mundo teríamos nós, em relação à dita mosca?
Nenhuma. Egoísmo demais achar que perante a natureza, algo que vive tenha mais direitos que outros. A luta pela sobrevivência leva ao jugo das espécies.
O mundo é dos mais fortes, então?... Desde sempre.
A viagem continuou, Rio-Sampa, num ônibus luxo, primeira classe; a mosca estivera lá. Seria Paulista ou Carioca? A gosma viscosa na janela começou a secar e a cessar os movimentos das pobres larvinhas; não haveria sobreviventes. O nojo deixou Ricardo incomodado e o balançar do ônibus já começava a ajudar a aumentar a ânsia..., e, o primeiro aviso chegou bem de mansinho, as glândulas salivares entrando em ação e uma golfada azeda chegou-lhe à garganta muito discretamente. Aviso sério. Olhou para trás verificando se o banheiro estava ocupado e pensou logo em dirigir-se ao mesmo; deu uma olhada nos últimos movimentos das larvinhas. A golfada encheu-lhe a boca e correu ao banheiro, no corredor veio outra e a boca já não tinha tanto espaço. O ônibus balançou, a mão de apoio no encosto do ônibus escorregou, caiu em cima de uma senhora e sentou-se no chão e, lá mesmo, com mais um balanço, tornou-se uma grande larva em cima de seu líquido fétido e também viscoso.
A natureza cobrou sua dívida; barato, mas cobrou.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Não minto, mas tampouco digo a verdade.

Sempre me encantou o enigma dessa frase, palavreada pelo sétimo Imperador Romano, Tiberius Claudius Drusus Nerus Germanicus. Seu primeiro livro, intitulado Eu, Claudius, Imperador! mostra como foi um dos maiores historiadores romanos contando sua própria história e a de Roma; sem ele não saberíamos certamente de muita coisa da História Romana, como a conhecemos hoje. Ele enfatiza, que o livro é escrito por ele mesmo, afirmando ser a habilidade do seu estilo e não a do seu secretário particular. Faz veladas críticas aos "senhores" de Roma, "ou um desses analistas oficiais a quem os homens públicos contam as suas memórias na esperança de que a retórica possa suprir a pobreza do assunto e a lijonsa velar os vícios". A conclusão que o leva a expressar a lógica do título do post, foi pura e simplesmente os fatos que não admitem controvérsias, ou seja, não tem retórica. Quem ouve o lê, simplesmente se vê diante de uma mafinestação da possibilidade do finito. Encerrou, pronto. Você simplesmente lê, acha estranho, pois nosso cérebro fica enrolado nessa contraposição, simplesmente estarrecido pelo aberração de todas as possibilidades serem verdadeiras ou falsas, dependendo do que se analisa, se a falsidade ou a verdade.
Ele trata o leitor como um confidente, com quem conversava, e detalhava, que, quando lendo o livro, você era excluído dessa graça de "entender a frase" e o livro, somente a posteridade: "Desta vez, escrevo uma história confidencial. Quem são os meus confidentes, perguntareis? A posteridade. Não meus netos, nem os netos de meus netos, mas uma posteridade mais remota. E, no entanto, eu desejaria que vós, meus leitores daqui a cem gerações ou mais, eu desejaria que vós tivésseis a impressão de que estou simplesmente a conversar convosco, como um contemporâneo"; e o livro o é. Para a tal conclusão da frase, ele deu como exemplo os fatos de que, tal homem desposou tal mulher; "filha de tal outro, cujos títulos honoríficos enumero; mas nada digo das razões políticas do casamento nem das negociações de ambas as famílias nos bastidores. Ou, então, tal outro morre subitamente, após haver comido um prato de figos da África, mas não falo nem do veneno, nem daquelas a quem essa morte possa ter aproveitado, a menos que o fato seja reconhecido por um veredicto da Justiça: Não minto, mas tampouco digo a verdade, no sentido em que pretendo dizê-la agora".
Também usou para ilustrar, as sutilezas de uma antiga balada, que exaltava que as qualidades de duas frutas, uma doce e outra azeda, as melhores estavam no pomar dos Claudius; a balada coloca Appius Claudius, o Vaidoso, que pôs Roma em polvorosa, abusando de uma menina livre, de nome Virgínia (Elza Virgínia). A canção acrescenta que entre as mulheres dos Claudius há igualmente maçãs doces e azedas, mas que entre elas também as azedas predominam. Usava de irreverência para relatar a História, sua história; também foi contemporâneo de Tito Livio, seu preceptor, memorável historiador romano.
O livro é uma história que foi objeto de toda sorte de falsas interpretações, não somente por parte dos contemporâneos, mas também pelas gerações imediatas. Tanto assim, que todas as passagens de maior importância estão envolvidas em dúvida e obscuridade. De modo que, enquanto uns tomam por fatos verdadeiros as lendas mais inconsistentes, outros transformam os fatos em falsidades. E ambas as interpretações são, por sua vez, exageradas pelos pósteros. É assim que entendo a frase. fui!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Guerra de Browsers

bMicrosoft Gazelle é o nome do mais novo navegador da Microsoft que segundo rumores deverá ser mais seguro do que o próprio Internet Explorer. Então podemos imaginar que a Microsoft, deve está querendo acabar com o nome “sujo” deixado pelas 7 versões do Internet Explorer (ou quem sabe até as 8 versões), e lançar um novo navegador, para tentar apagar a imagem deixada em seu único navegador, durante tantos anos.

Era o que faltava: Num Safari, uma Raposa (firefox) caça uma gazela (Gazzele) com um rifle Cromado (Chrome) ao som de Opera sem as ameaças de um dragão (Mozilla).

Pronto!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

É a idade...

e... ela chega sem ser percebida, de mansinho, a envolver-me todo, abraçando, me alisando a cabeça, deixando-me sem pelos, sem pelo menos perguntar se gosto de pelos da cor branca ou cabeça sem pelos. Seu abraço me enruga a pele deixando-a engelhada; basta olhar meu rosto no espelho para ver as rugas provocadas pelo seu "amasso"... que delícia! Seu abraço imperceptível, embaça minha visão, colocando uma bruma, que a cada dia fica mais espessa... vai faltar-me a visão? Sua presença é tão marcante, que já não me interesso pelo carnaval, pelas peladas (ops! de bola!), mas estranhamente me acompanha aos bares! Atualmente, sempre adormece comigo, e, ao acordar e olhar outra vez o rosto no espelho, nem sei se dormi por cima dela ou ela por cima de mim... tou mesmo todo enrugado. É a idade.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Enigma da Uruguaiana

Finalmente desvendado! e o mérito se deve ao cara de nome mais estranho que já vi; [...] Estrella Akersztejn!
Mas, do que se trata?
Já algum tempo, que nós aqui na empresa, ficamos falando uns aos outros, o que seria a frase falada ao final da mensagem no Metro da Uruguaina... aqui no Rio, as mensagens de anúncio das estações, são dadas em português e inglês, tipo, "Próxima estação, Uruguaiana, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma", pois nessa estação, existe um grande vão, devido a estação ser em curva; logo após, vem a mensagem em inglês: "Next stop, Uruguaina Station, %$#@@*&$"... é, esses grafismos expressam o enigma. Bom, uma coisa eu tenho certeza, vou morrer sem aprender português, e meu inglês fraquinho, escapa pra perguntar onde fica a rua tal... e coisas assim.
Sempre que lembro ao chegar na Uruguaiana, fico de "oiças" ligadas pra tentar entender o que a mensagem "cifrada" quer dizer, e, tenho mais dois colegas no trabalho que também faziam a mesma coisa; pura falta do que fazer! nunca chegávamos a uma conclusão e, parece que para ajudar, na maioria das vezes a mensagem parece(ia) ser maldosamente "cortada". Hoje, me lembrei do tal enigma e fiquei atento e ela me foi incrivelmente "clara" (só rindo!), dizia: "..., by the man"! isso não faz nenhum sentido pra mim, e, todo contente, anunciei que achava que tinha desvendado, mas que não tinha nenhum sentido e também que a dúvida continuava... e como sempre, as mesmas sacanagens! volta e meia voltávamos com isso... já durava meses! falta do que fazer, mas divertia, não que o Jacob (o cara do nome estranho!) tenha acabado com a brincadeira, logo arrumaremos outra! hehe! sentei na mesa, despreocupado, quando o Galego chegou, o outro que estava na tentativa do desvendamento do enigma (só rindo de novo!); estávamos comentando sobre a "nova" frase que eu tinha ouvido hoje, quando o Jacob, do outro lado ouviu a nossa conversa e exclamou! "Para os que nunca foram a Londres,... mind the gap"! impressionante como tudo agora faz sentido,... bom, vamos conferir, mas não restam dúvidas! nem adianta agora ficar dizendo isso e aquilo, mas se eu não insistisse no tal enigma, eu e os que me sacanearam, iam ficar com a tal dúvida (só rindo!).
A lição é: nenhuma!
Só rindo até mijar nas calças!... e a história dessa brincadeira se perpetuará por longos anos, talvez passando aos nossos netos... e era uma brincadeira sem pé nem cabeça! valeu Jacob!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Peixeiro

Ando relaxado com meus contos ultimamente. Também, tenho estado muito ocupado com o trabalho; sim leitores, eu trabalho... e um bocado! Aos domingos tenho o hábito de ir à feira comprar beiju. Adoro essa iguaria nordestina. Os mais sofisticados, têm coco e queijo ralado; ou só coco, ou só queijo. Enfim, tem ela sem coco e queijo; a tradicional... ufa!

As feirinhas no Rio, são nômades; um dia na Moraes e Silva1, outro ali perto do América, cada dia num canto. Essa perto do América2, é a que vou, por ser a mais perto. Sempre vou direto à banca da D. Ana, uma senhora rechonchuda, ajudada permanentemente por sua filha, muito gentil por sinal... ambas. A filha cuidava do atendimento e D. Ana cuidava de fazer as tapiocas.

Estava aguardando ela fazer meu pedido, quando se achegou um sujeito da barraca da frente. Chegou se aboletando pro lado da filha da D. Ana, soltando umas investidas enviesadas, mas a garota era um sabão, se saia com maestria dos gracejos e dos engraçadinhos.

Antes de ele aparecer, estava eu ouvindo a conversa das duas com outros feirantes; dizia que o marido da filha, estava muito mal, evacuando sangue “por cima e por baixo” e, segundo a filha, era hemorragia gástrica; eu palpitei – não sei porque – que fosse úlcera do duodeno (?!). Um dos feirantes – vendia frangos -, explicou que deveria fazer um monte de exames, citando os “com certeza” e os “e talvez...”; uma verborragia em termos veterinários – inútil a todos – para explicar a urgência no tratamento. Bom, creio que uma pessoa que esteja jorrando sangue por cima e por baixo, não deva estar bem, de forma alguma.

- Ele tá branquinho, sem sangue o coitado – disse D. Ana.

- Mas ele está em casa, não foi ao médico? – Perguntei.

- Não filho, ele não quer ir ao médico de jeito nenhum!

- Mas hoje eu o carreguei até o Andaraí3; ficou internado – disse a filha.

- Ele tem o que mesmo? – perguntou um transeunte que parou em frente à banca.

- Ele tá evacuando...

- Hemorragia gástrica. – atalhou a filha.

- Mas menina, ele num tá mesmo evacuando sangue por cima e por baixo?

- É mãe, mas é por causa da hemorragia gástrica. – Isso deixava a filha embaraçada.

- Mas isso é muito sério! – Retrucou o transeunte. Por sinal um cabrinha chato!

- Isso mesmo, falta de sangue no organismo dá falência de órgãos, rim, fígado, coração... principalmente os rins; aí é um adeus! - o veterinário...

- Vixe Maria, menino, assim ‘cê me deixa assustada... – Tremendo já estava D. Ana.

- ... e ele ainda vai deixar essa lindeza aqui viúva! – disse apontando para a filha de D. Anna.

- Credo! – benzeu-se D. Ana.

Nisso, a filha foi ligar pro hospital e pedir informações, pois naquela conversa, despertou nela alguma coisa; por via das dúvidas foi telefonar. O marido tinha ficado tomando soro e estava bastante abatido; branco. Rapaz novo de 25 anos, flor da idade, casada com Carla já fazia um tempo; é motoboy, andando pra cima e pra baixo que nem juízo de doido e, sofrendo mais que sovaco de aleijado. Só comia porcarias, salgados das mais péssimas condições de higiene, daqueles de dois, três dias, requentados para os incautos. Não tinha hora para comer e a cada gorjeta ganha, um refrigerante. Bom, uma úlcera, devia ser o mínimo. O problema é que apareceram uns vômitos com partículas vermelhas de sangue, depois sangue mesmo, vermelho; já excretava sangue fazia uns quatro dias. Carla andava muito entretida com o trabalho, saia cedo, não tomava caso do problema, achava o Osvaldo muito frouxo pra doenças; e também tinha a faculdade de Educação Física a noite.

Mas a brancura dele já era esquisita, e isso inquietou Carla, então naquele dia arrastou o marido pro hospital, chamou os bombeiros, que o levaram quase a força, depois voltou pra ajudar a mãe; não tinha muito que fazer lá, portanto...

O sujeito de que falava – o da barraca da frente -, depois de desferidas as gracinhas, reclamou que um transeunte falou alguma coisa sobre cachaça, e este defendeu a cachaça, dizendo que cachaça era coisa boa.

- Ruim é dinheiro, compra tudo! Não tem graça.

- Tem razão – retruquei, pois achei original.

O sujeito era cheiro de peixe; o peixeiro da banca da frente. Usava um boné já encardido, parecia que um dia foi preto. Tinha amarrado à cintura uma capa plástica com listras grossas verde, na vertical, até o chão. Usava botas de borracha cano alto, brancas. Tinha escamas até no ralo bigode. A cara amassada de ressaca, ou de sono, pois pelo jeito ainda estava com álcool nas veias, o que ele confirmou depois. Olhei as mãos do sujeito, engelhadas pelo contato constante com a água. As unhas, com um alqueire de sujeira debaixo de cada uma. Junto ao engelhado das palmas das mãos, soltavam-se pequenos pedaços de pele; era o fígado reclamando seu quinhão. O estado das mãos do sujeito era feio. Mas algo me chamou atenção, um corte sobre o polegar esquerdo.

- Que foi isso? – Perguntei.

- Foi a peixeira, dei uma descuidada, e vupt, saiu um bife!

- Por que você não usa luva de aço? – Indaguei.

- Perde o tato, a sensibilidade...

- Mas evita estes acidentes.

- Foi uma coisinha fofa que me tirou a atenção, parou em frente e me tirou as “oiças4”.

- Mas parece uma queimadura...

- Cauterizei.

- Como?

- Esquentei a peixeira com o isqueiro, depois coloquei em cima!

- Quê?!

- Ué, parou de sangrar na hora!

- Cara, você é meio doido...

- Maluco de pedra! Já viu como se trata um peixe?

- Não.

- Acompanhe-me, então... – fui à banca do sujeito; um cheiro de peixe insuportável e escamas pra todo lado, junto com vísceras de peixes, ovas, sangue de peixe, camarão, lulas e um monte de filés amontoados e ainda parecia que tudo estava à venda. (!?)

- Vou te mostrar com se trata uma belezura destas – disse pegando um peixe. Isso daqui é uma pescada, filé de pescada é o que mais sai, isso frito com uma cachacinha, humm... – disse lambendo os beiços. E começou amolando a faca numa pedra de amolar já carcomida de tanto afiar lâminas, depois de várias passadas na pedra, olhou a faca e disse que ela agora cortaria até o vento. Começou cortando as nadadeiras dorsais, depois deu um corte rápido e sacou fora o rabo, depois com um corte certeiro, abriu a barriga e sacou com a mão as vísceras e jogou num tonel, já cheio daquilo; o cheiro era um tema a parte. Causava náuseas, mas nosso amigo continuava tratando do peixe; já arrancava as guelras e começava a lanhar. Antes tinha observado que ele não havia tirado as escamas convencionalmente, como eu conhecia, que era raspando as escamas, ele simplesmente, cortou cirurgicamente a pele abaixo da escama, deixando a mostra uma carne branca e limpinha. Mergulhou então o peixe num balde e estava lavado. Passou então a tirar os filés, que era afinal, o produto final daquele trabalho. Impressionou a rapidez e a precisão com que tudo aquilo era feito.

- Agora o patrão pode levar, foi especial, peixe fresco mesmo. – fiquei na onça!

- Tá bem, joga o bicho na balança.

- Um kilo e 200 e alguma coisa... um kilo e duzentos! Só... oito reais; pronto.

Paguei o peixe e fui embora, passando pela barraca da Dona Ana e pegando meus beijus que já estavam suando nos saquinhos de plástico. Fui caminhando e pensando no sujeito do peixe. Devia ter uma vida desregrada, cheia de vadiagem, e lutava na feira fazendo aquele trabalho. Havia dito que a mulher sentia o cheiro dele de longe, cheiro de peixe, e ainda misturado com catinga de sovaco. Meia hora de banho e ainda tinha que tomar outro banho de desodorante barato; pra enganar o cheiro e a mulher não reclamar muito. Depois tinha que lavar as botas pela segunda vez, pois o cheiro depois seria desagradável. O Serafim tinha nome de anjo, mas só o nome, pois era o capeta em pessoa.

Como de costume, depois do banho começava a ladainha da mulher.

- Tu não dormiste em casa ontem, Serafim...

- É que o peixe demorou muito lá em Niterói, quando chegou eram umas duas da manhã, as cinco tinha que estar montando a feira...

- E...

- Bom, assamos umas piabas e ficamos “beliscando” uma pinguinha... Pra passar o frio, né?

- Por que não ligou então?

- E eu num fiz isso, hein?!

- E...

- Uma voz do celular disse que tinha uns “pobremas” com seu telefone...

- É por que eu não comprei mais os cartões, tu também só alui. Mas este mês eu comprei o cartão e não tem “pobremas” nenhum viu! Vem cá, que bafo é esse?

- ... (cabisbaixo)

- Tu bebeste ordinário?

- Cheirei, só cheirei, mas a bicha deixa um cheiro danado.

- Mas cachorro, tu acabou de tomar banho, esse cheiro ta vindo de teu buxo.

- Foi só agora, na saída,... uma “dosinha” só!

- E esses “zóis” de fogo? É cana ou ficou na vadiagem com teus amigos a noite toda, e nada de esperar peixe?

- Liga pro seu Alcindo então, pergunta a hora que ele chegou.

- As cinco da tarde, eu liguei ontem quando você saiu, pra perguntar que horas estava previsto o barco chegar, e ele disse que tinha acabado de chegar. O seu Alcindo “conseguiu” falar comigo ontem... Homem educado aquele...

- Morre os dois!

Ela encarou o Serafim, colocou a mão na cintura, fez uma cara de desdém, virou-se e foi pra cozinha, fazer alguma coisa pra aquele “ordinário” comer. Serafim por sua vez se jogou no sofá e aninhou uma almofada debaixo da cabeça e assistir um pouco de televisão, enquanto a mulher preparava um “rango”. O dia inteiro, só comeu uns pastéis e alguns tonéis de pinga, que ele jogava na goela de uma vez; meio copo da “marvada”. A TV no noticiário, e Serafim não estava lá assistindo, quando veio à mente a imagem de Carla, um sonho vivo. “O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família”.5 O dia todo aquela “malvadeza” passando pra lá e pra cá, os dias em que ela enluvava um vestido o tirava do sério; ele ia lá dar umas “beliscadas” no destino. De repente veio a voz da mulher a tirar-lhe o sonho

- Vai pra mesa Serafim!

- Tô indo, disse, arfando ao se levantar do sofá.

Na mesa, um guisado de peixe com cebolas inteiras, de cheiro agradável, não para Serafim que fica engulhando somente em sentir novamente o cheiro de peixe, no qual passa o dia inteiro esfaqueando-os, repuxando suas entranhas, jogando-as no chão, e, pisando nelas o dia inteiro. Enfastiado, Serafim meteu a primeira colher da “sopa” na boca.

- Tá aguada...

- Então infeliz, vai tu mesmo fazer tua gororoba.

- Num faz assim... minha formosura. Sílvia era muito bem feita de quadris e de ombros, a volta enérgica da cintura, e a suave protuberância dos seios, produziam nos sentidos de Serafim uma deliciosa impressão artística; era em corpo uma rival à Carla. Só que Sílvia era fogosa e “conhecida”, Carla, carne nova. Carla que me aguarde.

O despertador tiniu nos ouvidos de Serafim, 19h00! Era hora de acordar e se aprontar para o trabalho. Não poderia existir pior momento da vida de um homem, principalmente num homem chegado às extravagâncias da vida. A cabeça parecia querer explodir, latejando como um músculo preste a entrar em fadiga. As jugulares saltando-lhe ao pescoço, como algo que queira sair dali e tomar vida neste mundo. A boca, um gosto horrível de um corrimão de igreja. Os olhos inchados, nariz entupido, escorrendo água, estressado, um modorrento pedindo o fim do mundo. Esfregou os dedos nas beiradas dos olhos e arrastou de lá uma sebosa remela gosmenta. Ausência total de humor, gosto de cebola vindo-lhe à tona. Um arroto maldito denunciando as gastrites pedintes, tudo às escuras ainda. Deu uma larga e gostosa fungada no tempo; precisava de oxigênio, para a pior parte, levantar-se da cama e procurar o banheiro, lá então jorraria de si aquele líquido amarelo, fedido, de álcool e ruína. E aquilo subia às narinas. Uma ânsia de vômito dá um recado, e aquele líquido vem até perto da boca, deixando o gosto azedo e amargo do outro preço pago pela felicidade de ontem à noite, pelo prazer de simplesmente “sair daqui”, desta Terra maldita e indigna. Mas a idéia de encontrar a Carla, era o sedativo para esses males, agora iria encontrá-la, ir a sua banca e desejar “Bom dia, minha coisinha fofa!”.

Jorro de água fria na cara! Difícil acordar totalmente; tem que ser aos poucos. Uma arfada e começou com o vai-e-vem da escova naqueles cacos de dentes; só se salva a frente, mesmo assim, com suas pequenas cáries anunciando sua chegada. Outras vezes, já deu uma raspadinha entre os dentes, usando a ponta da tesoura; realmente fica feio, convenhamos. Era boca-da-noite e já era amanhecendo no trabalho de Severino. Seria uma dolorosa viagem de “buzú”6 até Niterói, Mercado dos Peixes. Silvia também trabalhava, fazendo faxina nas casas alheias, mas beliscava um bom dinheiro com esse trabalho, que às vezes folgava o Severino; ela trabalhava durante o dia, ele, noite toda e mais da metade do dia. Não era brincadeira de gente pequena não, aquilo realmente seria coisa me macho, e Severino suportava aquilo tudo embebido em álcool, num processo vicioso de morte matada.

É uma luta desigual, o homem querendo trabalhar e fazia isto se arrastando contra a própria vontade de não fazer aquilo, do outro a vontade de beber, que espantaria o desânimo. Era um prazer imenso a euforia de descaso com a vida, empapuçando-se de cachaça; aquilo aliviava, liberava os fardos, a tristeza; roubava-lhe a vergonha.

Dois anos depois, voltei à tal feira; somente vi D. Ana e, ao perguntar por Carla, disse-me que já não a ajudava muito, pois estava fazendo uma pós-graduação e agora tinha um filho pra cuidar também. O peixeiro, esse, se livrou desse vale de lágrimas... pelas mãos de sua adorada, a cachaça.


1 Rua Moraes e Silva, bairro Tijuca no Rio de Janeiro.

2 Sede do América Football Club, Rua Campos Salles, Tijuca.

3 Hospital do Andaraí, Rio.

4 A atenção.

5 Casa de Pensão, Aluísio Azevedo

6 Uma irreverente maneira de chamar os Ônibus.