quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Novo Site Cultura Inútil - Claudio Cardozo

Demorou, mas me rendi a "alugar" um domínio próprio... a partir de agora, meus posts estarão no site abaixo, se deliciem, plz!

Late, but I surrendered to "rent" my own domain ... from now, my posts will be at the site below, enjoy, plz!
 

Ziben - Alfarrábio Inútil

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Frases de Dante Alighieri

"No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a  neutralidade em tempo de crise." [Dante Alighieri]

"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama" [Dante Alighieri]

"Não se pode exprimir com palavras a passagem do estado humano ao
divino..." [Dante Alighieri]

"Oh, quão insuficiente é a palavra e quão ineficaz ao meu conceito!"
[Dante  Alighieri]

"Depois, mais do que a dor, venceu a fome." [Dante Alighieri]

"Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando
estamos na miséria." [Dante Alighieri]

"O dardo que vimos aproximar-se chega mais devagar." [Dante Alighieri]

"A vontade, se não quer, não cede, é como a chama ardente, que se eleva com mais força quanto mais se tenta abafá-la." [Dante Alighieri]

"Uma vontade, mesmo se é boa, deve ceder a uma melhor." [Dante Alighieri

"Tiveste sede de sangue, e eu de sangue te encho." [Dante Alighieri]

"Do viver que é uma corrida para a morte." [Dante Alighieri]

"Pensa que o dia passado não volta mais!" [Dante Alighieri]

"O tempo passa e o homem não percebe." [Dante Alighieri]

"Pois perder tempo desagrada mais a quem mais conhece o seu valor."  [Dante Alighieri]

"Vês que a razão, seguindo o caminho indicado pelos sentimentos, tem asas curtas." [Dante Alighieri]

"Quando os seus pés deixaram a pressa, que tolhe a nobreza a todo o ato..." [Dante Alighieri]

"Em leito de penas não se alcança a fama nem sobre as cobertas; Quem a vida consome sem a fama, não deixa de si nenhum vestígio sobre a terra, qual fumo  no ar e espuma na água. " [Dante Alighieri]

"E se não choras, do que costumas chorar?" [Dante Alighieri]

"E eu a ele: 'Sou um que escreve apenas quando me fala o Amor e tenta relatar fielmente o que ele dita dentro de mim'." [Dante Alighieri]

"A estirpe não transforma os indivíduos em nobres, mas os indivíduos dão nobreza à estirpe." [Dante Alighieri]

"O mundo é cego, e tu vens exatamente dele." [Dante Alighieri]

"Pelo exemplo de Beatriz compreende-se facilmente como o amor feminino dura pouco, se não for conservado aceso pelo olhar e pelo tato do homem amado." [Dante Alighieri]

"Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas  coisas." [Dante Alighieri]

"E tal, balbuciando, ama e obedece à sua mãe, mas, quando adulto, deseja vê-la enterrada." [Dante Alighieri]

"Entregou-se tanto ao vício da luxúria que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer, para cancelar a censura que merecia." [Dante Alighieri]

"Vós que viveis e sempre atribuís tudo o que ocorre na terra aos movimentos celestes, como se tal movimento imprimisse em todas as coisas uma necessidade, Se assim fosse, em vós seria destruído o livre-arbítrio, e não seria justo que o homem tivesse por bem a alegria e por mal a dor. " [Dante  Alighieri]

"As leis existem, mas quem as aplica?" [Dante Alighieri]

"Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que  estão a mil milhas?" [Dante Alighieri]

"Ó musas, com o vosso alto engenho, ajudai-me; ó memória, que escreveste o  que vi, que se prove aqui a tua fidelidade." [Dante Alighieri]

"Tão fiel fui ao glorioso ofício, que perdi o sono e a saúde." [Dante Alighieri]

"A fé é a substância de coisas esperadas e o argumento das que não
aparecem; e isso parece-me ser a essência da fé." [Dante Alighieri]

"Louco é quem espera que a nossa razão possa percorrer a infinita via que tem uma substância em três pessoas." [Dante Alighieri]

"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra. " [Dante Alighieri]

"Porque jamais esquecerei, e ela me comove, vossa estimada e boa imagem paterna, quando no mundo, uma vez por outra, me ensináveis como o homem se torna eterno." [Dante Alighieri]

"O falar é um efeito natural; mas, de um modo ou de outro, a natureza deixa o homem escolher aquele que mais lhe agrada." [Dante Alighieri]

"Todo o homem é prevaricador, exceto Bonturo; por dinheiro, de um não se faz um sim." [Dante Alighieri]

"Contentai-vos em conhecer as obras de Deus; pois, se os homens tivessem podido conhecer todas as coisas, teria sido inútil o parto de Maria; e os vistes desejar, sem resultado, conhecer a causa das coisas, tanto que a insatisfação de seu desejo constitui, eternamente, a sua pena. " [Dante Alighieri]

"Puderam vencer em mim o ardor, que me levou a conhecer o mundo, e os vícios e as virtudes dos homens..." [Dante Alighieri]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

GPS - uma historinha...

O Sistema de Posicionamento Global, vulgarmente conhecido por GPS (do acrônimo do inglês Global Positioning System), é um sistema de posicionamento por satélite, por vezes incorretamente chamado de sistema de navegação, utilizado para determinação da posição de um receptor na superfície da Terra ou em órbita.
O sistema foi declarado totalmente operacional apenas em 1995. Seu desenvolvimento custou 10 bilhões de dólares. Consiste numa “constelação” de 28 satélites sendo 4 sobressalentes em 6 planos orbitais. Os satélites GPS, construídos pela empresa Rockwell, foram lançados entre Fevereiro de 1978 (Bloco I), e 6 de Novembro de 2004 (o 29º). Cada um circunda a Terra duas vezes por dia a uma altitude de 20200 quilômetros (12600 milhas) e a uma velocidade de 11265 quilômetros por hora (7000 milhas por hora).
O sistema GPS foi criado e é controlado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, DoD, e pode ser utilizado por qualquer pessoa, gratuitamente, necessitando apenas de um receptor que capte o sinal emitido pelos satélites.  O sistema está dividido em três partes: espacial, de controle e usuário. O segmento espacial é composto pela constelação de satélites. O segmento de controle é formado pelas estações terrestres dispersas pelo mundo ao longo da Zona Equatorial, responsáveis pela monitorização das órbitas dos satélites, sincronização dos relógios atómicos de bordo dos satélites e atualização dos dados de almanaque que os satélites transmitem. O segmento do usuário consiste num receptor que capta os sinais emitidos pelos satélites. Um receptor GPS (GPSR) descodifica as transmissões do sinal de código e fase de múltiplos satélites e calcula a sua posição com base nas distâncias a estes. A posição é dada por latitude, longitude e altitude, coordenadas geodésicas referentes ao sistema WGS84.
 GLONASS
O GLONASS (Global Navigation Satellite System) é um sistema de posicionamento geográfico, similar ao GPS, conta com uma constelação de 24 satélites divididos em três órbitas, pertence à Federação Russa. O primeiro satélite GLONASS foi lançado em 12 de Outubro de 1982, mas tinha apenas objetivos militares, datando a versão comercial do sistema apenas de 1993.
Uma constelação completa do GLONASS será composta de 24 satélites em 3 planos orbitais – 8 satélites por plano. Os planos tem a inclinação de 64.8° que é maior que os planos orbitais do GPS (55°) – isto é um benefício para os usuários localizados em latitudes altas (ou baixas) já que os satélites GLONASS viajam muito mais ao norte (ou sul) que os satélites GPS.
Os satélites GLONASS orbitam à uma altitude de 19100km – mais baixo que a órbita do GPS de 20200km. Esta órbita mais baixa significa que os satélites GLONASS completam uma em volta da Terra em 11horas e 15minutos – comparado às 11horas e 58minutoss para a órbita do GPS. 
Segundo Parkinson e Spilker (2006) o propósito do sistema global de navegação por satélite GLONASS é prover a um número ilimitado de usuários com serviços de posicionamento tridimensional, medida de velocidade e de tempo em qualquer lugar do globo terrestre e em qualquer condição climática.

GALILEO 
Galileo é um Sistema de Posicionamento Global por satélite europeu. Concebido desde o início como um projecto civil, em oposição ao GPS americano e ao GLONASS russo que são de origem militar, tendo, várias vantagens: maior precisão (ainda a ser confirmado em testes reais), maior segurança (possibilidade de transmitir e confirmar pedidos de ajuda em caso emergência) e menos sujeito a problemas (o sistema tem a capacidade de testar a sua integridade automaticamente). Além disso, o sistema será inter-operável com os outros dois sistemas já existentes, permitindo uma maior cobertura de satélites.
O sistema completo incluirá 30 satélites, dos quais 3 ficarão em reserva como suplentes caso sejam necessários, e prevê-se a sua entrada em funcionamento este ano (2010), embora com um atraso de dois anos face às perspectivas iniciais.
Os primeiros sinais Galileo foram transmitidos no dia 12 de Janeiro de 2006 pelo satélite GIOVE-A que tinha sido colocado em órbita a 28 de Dezembro de 2005. Em construção está o GIOVE-B, o segundo satélite de teste.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ponta cabeça

Meu filho, quando sobra tempo vive de ponta cabeça.

E após a morte?

Nada, absolutamente nada! Aqui já há uma incoerência, nada! Que é exatamente o Nada? Que abstração podemos ter do nada? Como compreender o nada? Afinal, o Nada existe?


A melhor definição de nada, é o meio. O meio é o Nada.


Trataremos de uma hipótese, que seria o Nada após a morte, não subestimando, de forma alguma, crenças e religiões às suas filosofias concernentes a morte e post mortem.
Excetuando algumas alucinações, alguém lembra de algo antes de ter nascido? Melhor, antes de uma ano de vida... lembra não? Nadinha? Bom... Nada, absolutamente nada. Impossível de compreensão, algo fora do nosso alcance mental, uma dimensão exagerada para os nossos parcos conceitos fisiológicos e filosóficos. Imaginar algo se acabando, fugindo pra sempre de nossas sensações,... ver, ouvir, sentir... a seção de algo; a gente não compreende. É um apagar, pra sempre. Acerca-se aqui o primo-irmão do Nada, o Sempre. Onipresente, ele, o Sempre; o Nada pra sempre.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Meter a Língua onde não é chamado

Joaquim Ferreira dos Santos

Azeite, não é meu parente! Nem todos entendem, mas a língua que se falava antigamente era tranchã, era não?

As palavras pareciam todas usar galocha, e eu me lembro como ficava cabreiro quando aquela tetéia da rua, sempre usando tank colegial, se aprochegava com a barra da anágua aparecendo, vendendo farinha, como se dizia. Só porque tinha me trocado pelo desgramado que charlava numa baratinha, ela sapecava expressões do tipo “conheceu, papudo?!”, “Ora, vá lamber sabão”, eu devolvia de chofre, com toda a agressividade da época, “deixa de trololó, sua sirigaita”.

Tanto quanto o telefone preto, a geladeira branca e o sebo para se passar no couro da bola número 5, essas palavras foram sendo consideradas como as garotas feias de então — buchos. Aconteceu com elas, as palavras, o mesmo que ao Zé Trindade — empacotaram, bateram as botas. Tomaram um cascudo, levaram sopapo, catiripapo, e chisparam do vocabulário. Uma pena.

A língua mexe, pra frente e pra trás, e assim como o bacana retornou guaribado para servir de elogio nos tempos modernos, pode ser que breve, na legenda de uma foto da Daniela Cicarelli, os jornais voltem a fazer como diante da Adalgisa Colombo outrora, e digam que ela tem it, que ela é linda, um chuchu. São coisas do arco da velha, vai entender?! Não é só o mistério da ossada da Dana de Teffé que nos une ao passado. Não saberemos nunca, também, quem matou o mequetrefe, a pinimba, o tomar tenência e o neca de pitibiribas, essas delícias vocabulares que enxotadas pelo bom gosto gramatical picaram a mula e foram dormitar, como ursos no inverno, numa página escondida do dicionário.

Outro dia eu disse para as minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir com esse maiô Catalina que botei na frase. Nada escangalha mais, no máximo não funciona. Me acharam, sem usar tamanho e tão cansativo polissílabo, um completo mocorongo. Como sempre, estavam certas. Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagem do tempo, mas o que sai da boca tem data. Cuidado cinqüentões com o ato falho de pedir um ferro de engomar, achar tudo chinfrim, reclamar do galalau que senta na sua frente no cinema e a mania de dizer que a fila do banco está morrinha. Esse papo, por mais que você curta música techno e endívias, denuncia de que década você veio.

Acho legal que a Sonia Braga volte, curto às pamparras a Emilinha vendendo CD na praça. Mas por que não dar uma linguada no passado? Quer dizer, tenho a maior queda por um revival lingüístico. As mães costumavam passar sabão na língua do ranheta que falava palavrões. De vez em quando, todos sofremos essa limpeza e perdemos palavrinhas tão gostosas quanto aquele mingau de maizena com uma banana caramelada no meio. Será o Benedito?! Ninguém merece, tá ligado?

Eram palavrinhas catitas, todas do tempo em que as moças ficavam incomodadas mas não dormiam de touca. O borogodó, por exemplo, que andei saudando aqui semanas atrás como um mantra de felicidade solar por causa de seus redondos abertos e femininos, ganhou novo sopro de vida ao ser repetida em todos os capítulos de “Mulheres apaixonadas”. É a coqueluche semântica do momento. E, qual é o pó?! Por que não seria?! Se a bossa nova voltou, se a boca-de-sino também, por que não a moda da língua retrô? Manoel Carlos, que é meu chapa, poderia fazer o mesmo com songamonga. Cabe muito bem, seria batata na sonsa da Paloma Duarte. Ô mulherzinha pra gostar de um bafafá!

Essas palavrinhas das antigas, verdadeiros pitéus sonoros, podiam formar o MSL, Movimento das Sem-Língua, e exigir assentamento no papo do dia-a-dia ao lado de pamonhas, patas-chocas lamentáveis, como disponibilizar, fidelizar, maximizar e outras gaiatas que andam fazendo uma interface lambisgóia, totalmente lengalenga, na fala cotidiana. Ficaria um mix contemporâneo, como se diz. Uma língua bem exercida é metida, jamais galinha morta. É feita de avanços e recuos, e se isso parece reclame de algum programa do canal a cabo Sexy Hot, digamos que, sim, pode ser. Língua, seja qual for, é erótica. Dá prazer brincar com ela. Uma lambida no passado envernizaria novamente palavras que estavam lá, macambúzias e abandonadas, como quizumba, alaúza e jururu, expressões da pá virada como “na maciota”, “onde é que nós estamos!” e “ir para a cucuia”. Certamente, por mais cara de emplastro Sabiá que tenham, elas dariam na verdade uma viagrada numa língua que tem sido sacudida apenas pelo que é acessado do cibercafé e o demorô dos manos e das minas.

Meter a língua onde não é chamado pode ser divertido. Lembro de Oscarito passando a mão na barriga depois de botar pra dentro uma feijoada completa e dizer, todo preguiçoso e feliz, “tô com uma idiossincrasia!”. Estava com o bucho cheio, empanturrado de palavras gordas, compridas e nonsenses como um paio de porco. É o banquete que eu sugiro. Troque essa dieta de alface americana, de palavras transgênicas, que anda na moda, mas não vale um caracol. Se alguém, depois de receber todas essas palavras de lambuja, repetir a mamãe das antigas e, amuado, gritar “dobre a língua”, não se faça de rogado — estique.


Joaquim Ferreira dos Santos (1951), escritor e jornalista. Atualmente é cronista e colunista do jornal "O Globo". O texto acima, escrito durante a apresentação da novela "Mulheres apaixonadas", de Manoel Carlos, foi publicada no jornal "O Globo" de 08/09/2003, no 2o Caderno.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Kart Insano: somente para adultos

Olhem só como é o Mario Kart na vida real incrementado com o motor da Honda CBR 900RR motorcycle.


Eu achei um "pouquinho" perigoso, e vocês?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

As Lágrimas de POTIRA - POTIRA Essay

Há muito tempo, vivia à beira de um rio uma tribo de índios.
Itajibá e Potira, um casal muito feliz, vivia muito tranquilo quando
aconteceu uma guerra contra uma tribo vizinha.
Itajibá era um guerreiro muito forte e Potira era uma índia jovem e
formosa. Por causa da guerra, Itajibá teve que partir e, com muita tristeza
despediu-se de Potira. Na hora do adeus, Potira não chorou, mas
seguiu com os olhos cheios de tristeza a canoa que levou seu amor para
a guerra.
Todas as tardes, Potira ia até a margem do rio para esperar a volta
de Itajibá. Seu coração estava sangrando de saudade, mas a índia permanecia
calma e confiante na volta de seu amado.
Um dia, Potira recebeu a notícia da morte de Itajibá. Ele morreu
como um herói lutando contra o inimigo. Nesse dia a índia perdeu a
calma e começou a chorar. Potira passou o resto de sua vida na beira
do rio, chorando sem cessar. Suas lágrimas então, misturaram-se com
as areias brancas do rio.
Tupã, o deus dos deuses, impressionou-se muito com a tristeza da
índia, e transformou suas lágrimas em diamantes. É por isso que encontramos
os diamantes entre os cascalhos dos rios e dos regatos. O brilho
e a pureza dos diamantes lembram as lágrimas de saudade da triste

índia.

-- Agora em Tupi

Acoérame, amo abatyba pararembeype oicobé.
Itajibá Potira bé, jojabé orybeté, angatú oicó. Nhem, amyioca xupé
marana abatyba oanga.
Itajibá guaryni pyatã baé Potira cunhãmussu porangeté.
Marãressé, Itajibá ossó tekoteben. Torybeymeté Potira suí oneim.
Eré! Éreme, Potira ndoessayruã, nhem, essá rorybeymeté pupé
oimaenpitá ygara oiarassó omiaussuba maranape.
Opaim carucá ramé, Itajibá jebyra to iarõ, Potira parárembeyba coty ossó.
Sanga epiacaúba ressé tuguissema o icóbo. Nde, ebocuei cunhã
ojerobiarybo omiaussuba jebyra oié byter aribé.
Osenduba Potira reõressé Ijajibá moranduba, amóara. I marã omonhãbo sumarã xupé, naurúnamo o manõ. Oicaimaribé cunhã, có ara, oessaypy bé.
Potira omanõme coty pará rembeybape, essaybo pycaeyme opita.
Sessay, saéramo, ojemonan pará ybykuí tim namo.
Tupã, jararyara, ebocuei cunhã oribeyma ressé jemoangassieté. É
teé, sessay pupé oimoitáatãberaba. Aipóramo, assé oiuassémo itáatã
beraba pará yecoababé curú pupe Itáatãberaba endy petyngabé

oimomaenduara epiacaúba ressé oribeyma cunhã ressay.

-- só rindo...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Mosca

... Mosca. Que sei eu de moscas?
A única coisa que lembro de mosca, foi o Ricardo que me contou sobre uma mosca verde, bem grandona, varejeira, voava-lhe a cabeça, ameaçadoramente; na certa deve ter sentido um certo cheiro - Ricardo não é muito chegado aos sabonetes, muito menos aos shampoos -, e buscava esse lugar para por suas larvinhas! Ricardo precaveu-se; tirou um sapato, bastante gasto nos bicos, pelas constantes lixadas nas calçadas, “pilotando” um skate velho; estava armado... com o sapato. A bichinha continuava em seus vôos de reconhecimento. Finalmente pousou grudada na janela, ao lado da cara do Ricardo, como a espreitar a presa; falsa presa. Talvez a mosquinha tivesse com preocupações mais voltadas a perpetuação da espécie, ou mesmo no fedor do chulé de meias de duas semanas. Paft! Que exagero. Totalmente esmagada! Sem nenhuma chance de defesa; não teve tempo. Elemento surpresa; letal... Mas a vida continua... minúsculas larvas, rastejavam pela vidraça da janela; foi sua última cartada; alguns sobreviventes! Asco! Nojo! Difícil acreditar no fim trágico daquelas prematuras larvas; pior seria observar – por curiosidade instintiva – o finalizar dos movimentos das larvinhas. Triste fim. Ricardo ficou pensando por que teria feito aquilo, aquela maldade. Agora já achava realmente uma tremenda maldade. Que direito de vida neste mundo teríamos nós, em relação à dita mosca?
Nenhuma. Egoísmo demais achar que perante a natureza, algo que vive tenha mais direitos que outros. A luta pela sobrevivência leva ao jugo das espécies.
O mundo é dos mais fortes, então?... Desde sempre.
A viagem continuou, Rio-Sampa, num ônibus luxo, primeira classe; a mosca estivera lá. Seria Paulista ou Carioca? A gosma viscosa na janela começou a secar e a cessar os movimentos das pobres larvinhas; não haveria sobreviventes. O nojo deixou Ricardo incomodado e o balançar do ônibus já começava a ajudar a aumentar a ânsia..., e, o primeiro aviso chegou bem de mansinho, as glândulas salivares entrando em ação e uma golfada azeda chegou-lhe à garganta muito discretamente. Aviso sério. Olhou para trás verificando se o banheiro estava ocupado e pensou logo em dirigir-se ao mesmo; deu uma olhada nos últimos movimentos das larvinhas. A golfada encheu-lhe a boca e correu ao banheiro, no corredor veio outra e a boca já não tinha tanto espaço. O ônibus balançou, a mão de apoio no encosto do ônibus escorregou, caiu em cima de uma senhora e sentou-se no chão e, lá mesmo, com mais um balanço, tornou-se uma grande larva em cima de seu líquido fétido e também viscoso.
A natureza cobrou sua dívida; barato, mas cobrou.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Não minto, mas tampouco digo a verdade.

Sempre me encantou o enigma dessa frase, palavreada pelo sétimo Imperador Romano, Tiberius Claudius Drusus Nerus Germanicus. Seu primeiro livro, intitulado Eu, Claudius, Imperador! mostra como foi um dos maiores historiadores romanos contando sua própria história e a de Roma; sem ele não saberíamos certamente de muita coisa da História Romana, como a conhecemos hoje. Ele enfatiza, que o livro é escrito por ele mesmo, afirmando ser a habilidade do seu estilo e não a do seu secretário particular. Faz veladas críticas aos "senhores" de Roma, "ou um desses analistas oficiais a quem os homens públicos contam as suas memórias na esperança de que a retórica possa suprir a pobreza do assunto e a lijonsa velar os vícios". A conclusão que o leva a expressar a lógica do título do post, foi pura e simplesmente os fatos que não admitem controvérsias, ou seja, não tem retórica. Quem ouve o lê, simplesmente se vê diante de uma mafinestação da possibilidade do finito. Encerrou, pronto. Você simplesmente lê, acha estranho, pois nosso cérebro fica enrolado nessa contraposição, simplesmente estarrecido pelo aberração de todas as possibilidades serem verdadeiras ou falsas, dependendo do que se analisa, se a falsidade ou a verdade.
Ele trata o leitor como um confidente, com quem conversava, e detalhava, que, quando lendo o livro, você era excluído dessa graça de "entender a frase" e o livro, somente a posteridade: "Desta vez, escrevo uma história confidencial. Quem são os meus confidentes, perguntareis? A posteridade. Não meus netos, nem os netos de meus netos, mas uma posteridade mais remota. E, no entanto, eu desejaria que vós, meus leitores daqui a cem gerações ou mais, eu desejaria que vós tivésseis a impressão de que estou simplesmente a conversar convosco, como um contemporâneo"; e o livro o é. Para a tal conclusão da frase, ele deu como exemplo os fatos de que, tal homem desposou tal mulher; "filha de tal outro, cujos títulos honoríficos enumero; mas nada digo das razões políticas do casamento nem das negociações de ambas as famílias nos bastidores. Ou, então, tal outro morre subitamente, após haver comido um prato de figos da África, mas não falo nem do veneno, nem daquelas a quem essa morte possa ter aproveitado, a menos que o fato seja reconhecido por um veredicto da Justiça: Não minto, mas tampouco digo a verdade, no sentido em que pretendo dizê-la agora".
Também usou para ilustrar, as sutilezas de uma antiga balada, que exaltava que as qualidades de duas frutas, uma doce e outra azeda, as melhores estavam no pomar dos Claudius; a balada coloca Appius Claudius, o Vaidoso, que pôs Roma em polvorosa, abusando de uma menina livre, de nome Virgínia (Elza Virgínia). A canção acrescenta que entre as mulheres dos Claudius há igualmente maçãs doces e azedas, mas que entre elas também as azedas predominam. Usava de irreverência para relatar a História, sua história; também foi contemporâneo de Tito Livio, seu preceptor, memorável historiador romano.
O livro é uma história que foi objeto de toda sorte de falsas interpretações, não somente por parte dos contemporâneos, mas também pelas gerações imediatas. Tanto assim, que todas as passagens de maior importância estão envolvidas em dúvida e obscuridade. De modo que, enquanto uns tomam por fatos verdadeiros as lendas mais inconsistentes, outros transformam os fatos em falsidades. E ambas as interpretações são, por sua vez, exageradas pelos pósteros. É assim que entendo a frase. fui!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Guerra de Browsers

bMicrosoft Gazelle é o nome do mais novo navegador da Microsoft que segundo rumores deverá ser mais seguro do que o próprio Internet Explorer. Então podemos imaginar que a Microsoft, deve está querendo acabar com o nome “sujo” deixado pelas 7 versões do Internet Explorer (ou quem sabe até as 8 versões), e lançar um novo navegador, para tentar apagar a imagem deixada em seu único navegador, durante tantos anos.

Era o que faltava: Num Safari, uma Raposa (firefox) caça uma gazela (Gazzele) com um rifle Cromado (Chrome) ao som de Opera sem as ameaças de um dragão (Mozilla).

Pronto!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

É a idade...

e... ela chega sem ser percebida, de mansinho, a envolver-me todo, abraçando, me alisando a cabeça, deixando-me sem pelos, sem pelo menos perguntar se gosto de pelos da cor branca ou cabeça sem pelos. Seu abraço me enruga a pele deixando-a engelhada; basta olhar meu rosto no espelho para ver as rugas provocadas pelo seu "amasso"... que delícia! Seu abraço imperceptível, embaça minha visão, colocando uma bruma, que a cada dia fica mais espessa... vai faltar-me a visão? Sua presença é tão marcante, que já não me interesso pelo carnaval, pelas peladas (ops! de bola!), mas estranhamente me acompanha aos bares! Atualmente, sempre adormece comigo, e, ao acordar e olhar outra vez o rosto no espelho, nem sei se dormi por cima dela ou ela por cima de mim... tou mesmo todo enrugado. É a idade.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Enigma da Uruguaiana

Finalmente desvendado! e o mérito se deve ao cara de nome mais estranho que já vi; [...] Estrella Akersztejn!
Mas, do que se trata?
Já algum tempo, que nós aqui na empresa, ficamos falando uns aos outros, o que seria a frase falada ao final da mensagem no Metro da Uruguaina... aqui no Rio, as mensagens de anúncio das estações, são dadas em português e inglês, tipo, "Próxima estação, Uruguaiana, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma", pois nessa estação, existe um grande vão, devido a estação ser em curva; logo após, vem a mensagem em inglês: "Next stop, Uruguaina Station, %$#@@*&$"... é, esses grafismos expressam o enigma. Bom, uma coisa eu tenho certeza, vou morrer sem aprender português, e meu inglês fraquinho, escapa pra perguntar onde fica a rua tal... e coisas assim.
Sempre que lembro ao chegar na Uruguaiana, fico de "oiças" ligadas pra tentar entender o que a mensagem "cifrada" quer dizer, e, tenho mais dois colegas no trabalho que também faziam a mesma coisa; pura falta do que fazer! nunca chegávamos a uma conclusão e, parece que para ajudar, na maioria das vezes a mensagem parece(ia) ser maldosamente "cortada". Hoje, me lembrei do tal enigma e fiquei atento e ela me foi incrivelmente "clara" (só rindo!), dizia: "..., by the man"! isso não faz nenhum sentido pra mim, e, todo contente, anunciei que achava que tinha desvendado, mas que não tinha nenhum sentido e também que a dúvida continuava... e como sempre, as mesmas sacanagens! volta e meia voltávamos com isso... já durava meses! falta do que fazer, mas divertia, não que o Jacob (o cara do nome estranho!) tenha acabado com a brincadeira, logo arrumaremos outra! hehe! sentei na mesa, despreocupado, quando o Galego chegou, o outro que estava na tentativa do desvendamento do enigma (só rindo de novo!); estávamos comentando sobre a "nova" frase que eu tinha ouvido hoje, quando o Jacob, do outro lado ouviu a nossa conversa e exclamou! "Para os que nunca foram a Londres,... mind the gap"! impressionante como tudo agora faz sentido,... bom, vamos conferir, mas não restam dúvidas! nem adianta agora ficar dizendo isso e aquilo, mas se eu não insistisse no tal enigma, eu e os que me sacanearam, iam ficar com a tal dúvida (só rindo!).
A lição é: nenhuma!
Só rindo até mijar nas calças!... e a história dessa brincadeira se perpetuará por longos anos, talvez passando aos nossos netos... e era uma brincadeira sem pé nem cabeça! valeu Jacob!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Peixeiro

Ando relaxado com meus contos ultimamente. Também, tenho estado muito ocupado com o trabalho; sim leitores, eu trabalho... e um bocado! Aos domingos tenho o hábito de ir à feira comprar beiju. Adoro essa iguaria nordestina. Os mais sofisticados, têm coco e queijo ralado; ou só coco, ou só queijo. Enfim, tem ela sem coco e queijo; a tradicional... ufa!

As feirinhas no Rio, são nômades; um dia na Moraes e Silva1, outro ali perto do América, cada dia num canto. Essa perto do América2, é a que vou, por ser a mais perto. Sempre vou direto à banca da D. Ana, uma senhora rechonchuda, ajudada permanentemente por sua filha, muito gentil por sinal... ambas. A filha cuidava do atendimento e D. Ana cuidava de fazer as tapiocas.

Estava aguardando ela fazer meu pedido, quando se achegou um sujeito da barraca da frente. Chegou se aboletando pro lado da filha da D. Ana, soltando umas investidas enviesadas, mas a garota era um sabão, se saia com maestria dos gracejos e dos engraçadinhos.

Antes de ele aparecer, estava eu ouvindo a conversa das duas com outros feirantes; dizia que o marido da filha, estava muito mal, evacuando sangue “por cima e por baixo” e, segundo a filha, era hemorragia gástrica; eu palpitei – não sei porque – que fosse úlcera do duodeno (?!). Um dos feirantes – vendia frangos -, explicou que deveria fazer um monte de exames, citando os “com certeza” e os “e talvez...”; uma verborragia em termos veterinários – inútil a todos – para explicar a urgência no tratamento. Bom, creio que uma pessoa que esteja jorrando sangue por cima e por baixo, não deva estar bem, de forma alguma.

- Ele tá branquinho, sem sangue o coitado – disse D. Ana.

- Mas ele está em casa, não foi ao médico? – Perguntei.

- Não filho, ele não quer ir ao médico de jeito nenhum!

- Mas hoje eu o carreguei até o Andaraí3; ficou internado – disse a filha.

- Ele tem o que mesmo? – perguntou um transeunte que parou em frente à banca.

- Ele tá evacuando...

- Hemorragia gástrica. – atalhou a filha.

- Mas menina, ele num tá mesmo evacuando sangue por cima e por baixo?

- É mãe, mas é por causa da hemorragia gástrica. – Isso deixava a filha embaraçada.

- Mas isso é muito sério! – Retrucou o transeunte. Por sinal um cabrinha chato!

- Isso mesmo, falta de sangue no organismo dá falência de órgãos, rim, fígado, coração... principalmente os rins; aí é um adeus! - o veterinário...

- Vixe Maria, menino, assim ‘cê me deixa assustada... – Tremendo já estava D. Ana.

- ... e ele ainda vai deixar essa lindeza aqui viúva! – disse apontando para a filha de D. Anna.

- Credo! – benzeu-se D. Ana.

Nisso, a filha foi ligar pro hospital e pedir informações, pois naquela conversa, despertou nela alguma coisa; por via das dúvidas foi telefonar. O marido tinha ficado tomando soro e estava bastante abatido; branco. Rapaz novo de 25 anos, flor da idade, casada com Carla já fazia um tempo; é motoboy, andando pra cima e pra baixo que nem juízo de doido e, sofrendo mais que sovaco de aleijado. Só comia porcarias, salgados das mais péssimas condições de higiene, daqueles de dois, três dias, requentados para os incautos. Não tinha hora para comer e a cada gorjeta ganha, um refrigerante. Bom, uma úlcera, devia ser o mínimo. O problema é que apareceram uns vômitos com partículas vermelhas de sangue, depois sangue mesmo, vermelho; já excretava sangue fazia uns quatro dias. Carla andava muito entretida com o trabalho, saia cedo, não tomava caso do problema, achava o Osvaldo muito frouxo pra doenças; e também tinha a faculdade de Educação Física a noite.

Mas a brancura dele já era esquisita, e isso inquietou Carla, então naquele dia arrastou o marido pro hospital, chamou os bombeiros, que o levaram quase a força, depois voltou pra ajudar a mãe; não tinha muito que fazer lá, portanto...

O sujeito de que falava – o da barraca da frente -, depois de desferidas as gracinhas, reclamou que um transeunte falou alguma coisa sobre cachaça, e este defendeu a cachaça, dizendo que cachaça era coisa boa.

- Ruim é dinheiro, compra tudo! Não tem graça.

- Tem razão – retruquei, pois achei original.

O sujeito era cheiro de peixe; o peixeiro da banca da frente. Usava um boné já encardido, parecia que um dia foi preto. Tinha amarrado à cintura uma capa plástica com listras grossas verde, na vertical, até o chão. Usava botas de borracha cano alto, brancas. Tinha escamas até no ralo bigode. A cara amassada de ressaca, ou de sono, pois pelo jeito ainda estava com álcool nas veias, o que ele confirmou depois. Olhei as mãos do sujeito, engelhadas pelo contato constante com a água. As unhas, com um alqueire de sujeira debaixo de cada uma. Junto ao engelhado das palmas das mãos, soltavam-se pequenos pedaços de pele; era o fígado reclamando seu quinhão. O estado das mãos do sujeito era feio. Mas algo me chamou atenção, um corte sobre o polegar esquerdo.

- Que foi isso? – Perguntei.

- Foi a peixeira, dei uma descuidada, e vupt, saiu um bife!

- Por que você não usa luva de aço? – Indaguei.

- Perde o tato, a sensibilidade...

- Mas evita estes acidentes.

- Foi uma coisinha fofa que me tirou a atenção, parou em frente e me tirou as “oiças4”.

- Mas parece uma queimadura...

- Cauterizei.

- Como?

- Esquentei a peixeira com o isqueiro, depois coloquei em cima!

- Quê?!

- Ué, parou de sangrar na hora!

- Cara, você é meio doido...

- Maluco de pedra! Já viu como se trata um peixe?

- Não.

- Acompanhe-me, então... – fui à banca do sujeito; um cheiro de peixe insuportável e escamas pra todo lado, junto com vísceras de peixes, ovas, sangue de peixe, camarão, lulas e um monte de filés amontoados e ainda parecia que tudo estava à venda. (!?)

- Vou te mostrar com se trata uma belezura destas – disse pegando um peixe. Isso daqui é uma pescada, filé de pescada é o que mais sai, isso frito com uma cachacinha, humm... – disse lambendo os beiços. E começou amolando a faca numa pedra de amolar já carcomida de tanto afiar lâminas, depois de várias passadas na pedra, olhou a faca e disse que ela agora cortaria até o vento. Começou cortando as nadadeiras dorsais, depois deu um corte rápido e sacou fora o rabo, depois com um corte certeiro, abriu a barriga e sacou com a mão as vísceras e jogou num tonel, já cheio daquilo; o cheiro era um tema a parte. Causava náuseas, mas nosso amigo continuava tratando do peixe; já arrancava as guelras e começava a lanhar. Antes tinha observado que ele não havia tirado as escamas convencionalmente, como eu conhecia, que era raspando as escamas, ele simplesmente, cortou cirurgicamente a pele abaixo da escama, deixando a mostra uma carne branca e limpinha. Mergulhou então o peixe num balde e estava lavado. Passou então a tirar os filés, que era afinal, o produto final daquele trabalho. Impressionou a rapidez e a precisão com que tudo aquilo era feito.

- Agora o patrão pode levar, foi especial, peixe fresco mesmo. – fiquei na onça!

- Tá bem, joga o bicho na balança.

- Um kilo e 200 e alguma coisa... um kilo e duzentos! Só... oito reais; pronto.

Paguei o peixe e fui embora, passando pela barraca da Dona Ana e pegando meus beijus que já estavam suando nos saquinhos de plástico. Fui caminhando e pensando no sujeito do peixe. Devia ter uma vida desregrada, cheia de vadiagem, e lutava na feira fazendo aquele trabalho. Havia dito que a mulher sentia o cheiro dele de longe, cheiro de peixe, e ainda misturado com catinga de sovaco. Meia hora de banho e ainda tinha que tomar outro banho de desodorante barato; pra enganar o cheiro e a mulher não reclamar muito. Depois tinha que lavar as botas pela segunda vez, pois o cheiro depois seria desagradável. O Serafim tinha nome de anjo, mas só o nome, pois era o capeta em pessoa.

Como de costume, depois do banho começava a ladainha da mulher.

- Tu não dormiste em casa ontem, Serafim...

- É que o peixe demorou muito lá em Niterói, quando chegou eram umas duas da manhã, as cinco tinha que estar montando a feira...

- E...

- Bom, assamos umas piabas e ficamos “beliscando” uma pinguinha... Pra passar o frio, né?

- Por que não ligou então?

- E eu num fiz isso, hein?!

- E...

- Uma voz do celular disse que tinha uns “pobremas” com seu telefone...

- É por que eu não comprei mais os cartões, tu também só alui. Mas este mês eu comprei o cartão e não tem “pobremas” nenhum viu! Vem cá, que bafo é esse?

- ... (cabisbaixo)

- Tu bebeste ordinário?

- Cheirei, só cheirei, mas a bicha deixa um cheiro danado.

- Mas cachorro, tu acabou de tomar banho, esse cheiro ta vindo de teu buxo.

- Foi só agora, na saída,... uma “dosinha” só!

- E esses “zóis” de fogo? É cana ou ficou na vadiagem com teus amigos a noite toda, e nada de esperar peixe?

- Liga pro seu Alcindo então, pergunta a hora que ele chegou.

- As cinco da tarde, eu liguei ontem quando você saiu, pra perguntar que horas estava previsto o barco chegar, e ele disse que tinha acabado de chegar. O seu Alcindo “conseguiu” falar comigo ontem... Homem educado aquele...

- Morre os dois!

Ela encarou o Serafim, colocou a mão na cintura, fez uma cara de desdém, virou-se e foi pra cozinha, fazer alguma coisa pra aquele “ordinário” comer. Serafim por sua vez se jogou no sofá e aninhou uma almofada debaixo da cabeça e assistir um pouco de televisão, enquanto a mulher preparava um “rango”. O dia inteiro, só comeu uns pastéis e alguns tonéis de pinga, que ele jogava na goela de uma vez; meio copo da “marvada”. A TV no noticiário, e Serafim não estava lá assistindo, quando veio à mente a imagem de Carla, um sonho vivo. “O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família”.5 O dia todo aquela “malvadeza” passando pra lá e pra cá, os dias em que ela enluvava um vestido o tirava do sério; ele ia lá dar umas “beliscadas” no destino. De repente veio a voz da mulher a tirar-lhe o sonho

- Vai pra mesa Serafim!

- Tô indo, disse, arfando ao se levantar do sofá.

Na mesa, um guisado de peixe com cebolas inteiras, de cheiro agradável, não para Serafim que fica engulhando somente em sentir novamente o cheiro de peixe, no qual passa o dia inteiro esfaqueando-os, repuxando suas entranhas, jogando-as no chão, e, pisando nelas o dia inteiro. Enfastiado, Serafim meteu a primeira colher da “sopa” na boca.

- Tá aguada...

- Então infeliz, vai tu mesmo fazer tua gororoba.

- Num faz assim... minha formosura. Sílvia era muito bem feita de quadris e de ombros, a volta enérgica da cintura, e a suave protuberância dos seios, produziam nos sentidos de Serafim uma deliciosa impressão artística; era em corpo uma rival à Carla. Só que Sílvia era fogosa e “conhecida”, Carla, carne nova. Carla que me aguarde.

O despertador tiniu nos ouvidos de Serafim, 19h00! Era hora de acordar e se aprontar para o trabalho. Não poderia existir pior momento da vida de um homem, principalmente num homem chegado às extravagâncias da vida. A cabeça parecia querer explodir, latejando como um músculo preste a entrar em fadiga. As jugulares saltando-lhe ao pescoço, como algo que queira sair dali e tomar vida neste mundo. A boca, um gosto horrível de um corrimão de igreja. Os olhos inchados, nariz entupido, escorrendo água, estressado, um modorrento pedindo o fim do mundo. Esfregou os dedos nas beiradas dos olhos e arrastou de lá uma sebosa remela gosmenta. Ausência total de humor, gosto de cebola vindo-lhe à tona. Um arroto maldito denunciando as gastrites pedintes, tudo às escuras ainda. Deu uma larga e gostosa fungada no tempo; precisava de oxigênio, para a pior parte, levantar-se da cama e procurar o banheiro, lá então jorraria de si aquele líquido amarelo, fedido, de álcool e ruína. E aquilo subia às narinas. Uma ânsia de vômito dá um recado, e aquele líquido vem até perto da boca, deixando o gosto azedo e amargo do outro preço pago pela felicidade de ontem à noite, pelo prazer de simplesmente “sair daqui”, desta Terra maldita e indigna. Mas a idéia de encontrar a Carla, era o sedativo para esses males, agora iria encontrá-la, ir a sua banca e desejar “Bom dia, minha coisinha fofa!”.

Jorro de água fria na cara! Difícil acordar totalmente; tem que ser aos poucos. Uma arfada e começou com o vai-e-vem da escova naqueles cacos de dentes; só se salva a frente, mesmo assim, com suas pequenas cáries anunciando sua chegada. Outras vezes, já deu uma raspadinha entre os dentes, usando a ponta da tesoura; realmente fica feio, convenhamos. Era boca-da-noite e já era amanhecendo no trabalho de Severino. Seria uma dolorosa viagem de “buzú”6 até Niterói, Mercado dos Peixes. Silvia também trabalhava, fazendo faxina nas casas alheias, mas beliscava um bom dinheiro com esse trabalho, que às vezes folgava o Severino; ela trabalhava durante o dia, ele, noite toda e mais da metade do dia. Não era brincadeira de gente pequena não, aquilo realmente seria coisa me macho, e Severino suportava aquilo tudo embebido em álcool, num processo vicioso de morte matada.

É uma luta desigual, o homem querendo trabalhar e fazia isto se arrastando contra a própria vontade de não fazer aquilo, do outro a vontade de beber, que espantaria o desânimo. Era um prazer imenso a euforia de descaso com a vida, empapuçando-se de cachaça; aquilo aliviava, liberava os fardos, a tristeza; roubava-lhe a vergonha.

Dois anos depois, voltei à tal feira; somente vi D. Ana e, ao perguntar por Carla, disse-me que já não a ajudava muito, pois estava fazendo uma pós-graduação e agora tinha um filho pra cuidar também. O peixeiro, esse, se livrou desse vale de lágrimas... pelas mãos de sua adorada, a cachaça.


1 Rua Moraes e Silva, bairro Tijuca no Rio de Janeiro.

2 Sede do América Football Club, Rua Campos Salles, Tijuca.

3 Hospital do Andaraí, Rio.

4 A atenção.

5 Casa de Pensão, Aluísio Azevedo

6 Uma irreverente maneira de chamar os Ônibus.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tormento da mente

Estava em pé quando ouvi o primeiro estampido seco de um disparo... sem antes entender o que ocorria, senti uma dor gostosa, uma coceira, ardência, que foi logo atendida com as unhas sujas. Quão grande foi o espanto de um toque gelado, como o sentimento de algo gosmento, mas sem dor, e ao olhar, ver a carne da cabeça do ombro trespassada... só então, uma dor lancinante apoderou-se, sem clemência... a dor me jogou ao chão, miraculosamente protegendo a cabeça de projéteis raspantes, por um pequeno elevado de terra, um montinho, que cobria a cabeça completamente, mas deixava o traseiro para a alça de mira inimiga... dolorosas chicotadas! mas sem antes, levar de fio-a-pavio, um pouco no lombo seco e maltratado de tantos dias de mochila, como ardia os raspantes. Antes que o chão me amparasse, outro perfurou-me o ombro, quase junto ao primeiro, indicando um bom atirador a apertar o gatilho; talvez entrincheirado... mas já estava a ir ao chão.

Enfim a chuva

Oh de casa! – Minha mãe tinha o hábito de deixar a porta da frente da casa aberta, para circular o ar – quente – daquele sertão nordestino. Era um sujeito em tiras. As roupas aos farrapos, pele e osso.

    - Diga aí! Respondeu minha mãe da sala de jantar, e espichou a cabeça para olhar para a porta da frente.

    - Meia-tigela de arroz, pelo amor de Deus! por caridade..., por...

    - Oh Ginú, pega uma tigela de arroz aí... depois traga aqui pro moço! Agüente aí viu!.

Dias difíceis aqueles. Não chovia fazia cinco anos e as únicas coisas verdes que existiam, eram pano de sinuca, óculos ray-ban e papagaio, como se dizia pelas ruas cheias de redemoinhos e poeira acompanhada; um calor de rachar miolos... realmente há cincos anos não caía um “caroço” de água no chão. Pra não dizer que não tinha mais coisas verdes, tinha umas mangueiras que tinham achado um "veiozinho" d'água e ainda estavam verdes; já as mangas, eram minguadas. Houve, nos tempos da secura das árvores dois anos atrás, incêndios causados simplesmente por autocombustão.

Peguei uma tigela, fui na despensa, que sempre tinha cheiro de mofo ou baratas, sinceramente, não sei porque aquilo, já que limpava de vez em quando. Mas tinha época, em que realmente era impossível dizer, qual o ser que já estaria habitando a tal despensa. Mas a lata com o arroz, daquelas de vinte litros com tampa, estava fechada, enfiava a tigela e trazia derramando pelas bordas; mas devolvia a metade para a lata.

Quando pegava o arroz, via as “escolhas”, o quem vem a ser simplesmente um grão que não foi descascado pela máquina; pensava ligeiramente os tempos de farturas. Meu avô tinha uma fazenda umas sete léguas distantes da cidade; chamada de Fazenda Duvidosa. Até hoje não sei porque a fazenda tem este nome. Mas ela era de causar dúvidas. Tinha-se de tudo, roça de arroz aqui, dois riachos acolá, cheios de traíras, saborosas na brasa, roça de feijão; e era bom um feijão novo com caldo fino, “capitão-de-feijão”... gostoso. Levava azeite de babaçu, que no Maranhão abunda, cheiro-verde picado e, claro, a farinha. Amassava-se tudo na mão, fazendo um bolinho ao comprido; depois ia para a fritura, coisa boa mesmo. Galinha ao molho-pardo..., e às vezes me dava dó do método de matança da distinta. Primeiro vinha a “carreira” pra pegar a penosa, um monte de desmiolados tentando pegar a galinha; sempre umas cenas hilárias, seguidas por uma de terror, pelo menos para o lado da galinha.

    - Oh Ginú, traga logo isso menino! Gritou minha mãe.

    - Tô indo mãe!

Minha mãe pisava nas pernas e ia despenando o pescoço, depois dava umas batidinhas nele até ficar vermelho, depois a facada... o sangue espirrando para dentro de uma tigela, minha mãe com a ponta da faca mexendo a tigela pra misturar com alguma coisa; esse sangue seria usado mais tarde.no molho A galinha se debatia nos seus derradeiros momentos de agonia, ainda abria e fechava o bico, piscava os olhos, secos sem lágrimas... quando não se ia usar o sangue, então a morte vinha por um puxão do pescoço, que apartava as vértebras... quando se jogava a galinha no chão pra terminar de morrer, algumas ainda saiam correndo, com a cabeça deslocada... era uma graça maior para os que assistiam, esta cena. Mas eram somente os derradeiros desejos de uma galinha; sair correndo...

- Tome moço – dizia despejando a meia-tigela numa sacola miúda e esfarrapada que nem quem a carregava.

Naquele dia tinha um alvoroço na cidade, com muita gente chegando da roça, convocados pelo vigário da paróquia, com fama de carismático, para uma procissão descendo do Patronato, no Morro da Saudade, até a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios. Tinha um detalhe: essa procissão, as pessoas tinham que dar provas de desprendimento deste mundo, e elevar ao máximo o sentimento de busca da fé, ou seja, seria como um derradeiro pedido a Deus, para que mandasse chuva. Frei Cláudio, tinha avisado, que se todos quisessem ao mesmo tempo, chuva, Deus a mandaria naquele momento de intensa manifestação de fé, então estavam convocados somente os fiéis que se juntariam ao único pedido daquela multidão... chuva!

O dia amanhecera claro e ensolarado e pra não variar, nenhum sinal de nuvem no céu. Como viria a água, justo naquele dia? Mas ninguém conhece as intenções Dele. A tarde seria daquelas dos quarenta e cinco graus costumeiros; um forno.

Ao meio dia, já começara a aglomeração na frente do Patronato, onde funcionava o seminário para meninas, o Santa Catarina Labouré, e onde as freiras já começavam a jactância maternal para àquele povo, sedento de água, e saciando-se de fé, que parecia como uma nuvem invisível, a pairar sobre as cabeças desnudas daquele povo todo; dava dó. Alguns procuravam no céu alguma coisa, mas somente o azul infinito se manifestava. Tinha-se uma bela visão da cidade, de cima daquele morro, que com o nome de Saudade, denotava tanta, naquele dia. O horizonte mostrava-se também límpido e longínquo, deixando a alma sumir junto. Chover naquele dia, somente milagre. Mas a procissão estava marcada para as quatro da tarde; a chuva tinha esquecido daquele compromisso com certeza. Alguns começaram a aparecer com umas pequenas pedras na cabeça, onde, em cima das quais acendiam uma vela, já amolecidas pelo calor. Em pouco tempo, uma pedreira já não seria suficiente, para conter tamanha demanda por pedras.

As duas e meia da tarde, chegou Frei Pio, maranhense robusto de fé e conservadorismo, mas pio na fé e muito querido dos fiéis. Era quem sempre puxava as Aves Maria na igreja Matriz - voz robusta, grave -; depois incorporou a Salve Rainha ao meio-dia, cantada, pois rezada seria uma hora de joelhos, já que a oração pedia este respeito. Conversou com algumas senhoras, que se achegaram dele quando o viram chegando. Era invejável o carisma daquele frade franciscano e o respeito que impunha pela fé aos fiéis. Foi logo passando um sermão naqueles em que, o bafo da cachaça não deixava dúvidas de haviam passado antes, no mercado da Pedra, já que era uma segunda igreja (no sentido de reunir) aquele local para o povo que vinha da roça, mas nada que abalasse a verdadeira fé, era mais hábito mesmo, a fé era real e sincera. Frei Pio sabia disso. Começou então, a passar o dedo pelo seu terço de contas pretas e a rezar com sua voz grave. Parecia um trombone. Ele me contou várias vezes como fazia para manter aquele vozeirão intacto. Limão com mel gargarejado todas as manhãs. O cheiro de vela, deixava nauseabundo qualquer um que não estivesse acostumado a acender velas. As três e meia, apareceu Frei Cláudio, um frade franciscano alemão, de Köln (Colônia), de família rica, porte atlético, barba ligeiramente grisalha, mas de uma sensibilidade para com a pobreza incompreensível.

Com a chegada do Frei, que conduziria a procissão, os que estavam sentados, levantaram-se e os hinos para a Virgem começaram a eclodir, propagando-se em ondas. Interessante esse fenômeno, esse atraso nas ondas de som, deixa impossível uma sincronização em toda a multidão, mas de dentro não se tem essa impressão. Frei Cláudio colocou a estola branca por sobre a camisa de listras azuis, que ganhara de alguma senhora da sociedade, já que a maioria não poderia fazer essa caridade. Os franciscanos ainda mantêm o ensinamento do fundador da Ordem dos Frades Menores, São Francisco, usando o hábito bege nas regiões quentes, mas não é obrigatório. Frei Cláudio era moderno e dispensava o hábito, mas estava banhado pelo suor e, como prometido, as quatro em ponto deu inicio à procissão. Um carro com alto-falantes emprestava coragem aos hinos e ajudava na organização. Começaram a descer o morro, rumo à Matriz. Seria coisa de quatro kilometros, nada difícil, mesmo naquele calor.

A procissão já começava a endireitar-se na avenida principal, quando se ouviu um estrondo, há tanto tempo esquecido daqueles moucos ouvidos. Todos olharam para o céu, mas este continuava como sempre, azulzinho.

Eu tinha ficado no morro, vendo, pois não havia nada para fazer naquele sábado, também não acompanharia a procissão, então fiquei com uns amigos, confabulando asneiras. Foi com medo e susto, que ouvi aquele estrondo. Olhei o horizonte e o susto foi maior! Negro. Uma faixa enorme no horizonte, do lado do nascente, de ponta a ponta, baixa ainda, indicando que estava longe. Um terror tomou conta de mim. Olhei a procissão lá embaixo, que não poderia ver a faixa, pois o morro tirava a visão, e do outro lado, do poente, o sol continuava a castigar. Mas à frente da procissão, Frei Cláudio sentiu o estrondo dentro do coração, e não quis acreditar. Seguiram-se vários outros, e um vento forte trouxe o cheiro característico da chuva, já esquecidos naquelas narinas. Antes da chuva, outra chuva já começava a principiar-se: chuva de lágrimas.

Quem ousaria não acreditar em milagres?

Grossas gotas esparsas, precipitaram-se sobre aquela multidão, que mistificada pelo milagre, chorava e rezava. Em poucos minutos o céu era um azul profundo, cinzento escuro, rapidamente engolindo aquele sol castigador, e uma pesada chuva começou a banhar a todos e trovões saudavam a coragem e a fé daquela gente. Então, Ele fez-se presente. Indescritível alegria. Frei Cláudio, abaixou a cabeça e sentiu um gosto de sal na boca, não era suor desta vez, mas lágrimas. Pela primeira vez presenciava um milagre. Os soluços misturados com lágrimas, era a equânime da fé com o desejo. Os raios rasgavam o céu com tal intensidade, que os pés sentiam as ondas de choque, que se alastravam até o coração. O desejo de todos, era ser atingido por aquele raio, divino, sem sombra de dúvidas. A história se encarregaria de contar aos netos a alegria indescritível daquela gente, talvez como faço agora. Batiam palmas, cantavam, choravam a maioria, abraçavam-se, pulavam, enfim, ninguém conseguia, apesar de todos tentarem, expressar aquela alegria. E a chuva bondosamente, despencava-se em baldes sobre suas cabeças. Em pouco tempo poças d’água serviriam de banheiras, e já não era procissão, mas multidão, pois todos começaram a sair de casa, para banhar-se na fé daqueles que agora começavam a ficar contritos e a soluçar, retomando a procissão. Mas a cidade continuava a sair para o banho divino; algumas crianças pequenas desconheciam aquela manifestação da natureza. Choravam de medo, não de alegria, mas assim como o sol, a chuva vem para todos. Frei Cláudio caminhava de cabeça baixa, já não conseguia falar, mas mantinha os punhos cerrados contra o peito, com um choro já sem lágrimas, de soluços apenas. Tremia, não de frio, mas do ardor daquele milagre. Ficaria conhecido por aquela profecia, desferida com fé, e, agora orgulho; procurava palavras bonitas pela cabeça para fazer um agradecimento, mas Ele, também estava a divertir-se, no seio daquela gente, não ouviria os agradecimentos, então se contentou em deixar para a hora da oração do deitar; talvez lá ao pé da cama, alguma palavra tentasse, mas já tinha certeza que nenhuma língua conteria uma palavra que expressasse aquilo que nem ele saberia como fazer. Concentrou-se em terminar a procissão e a preparar a homilia da missa que se seguiria.

Eu, molhado que nem um pinto, me lambuzava na lama e nem lembrava que os céus continuavam a despencar.

E quem disse que a multidão queria entrar na igreja? Queriam mesmo era ficar na chuva. Alguém foi avisar o frei da vontade coletiva, que então exclamou.

- Que seja missa campal! Ouviu-se um viva, e logo, vivas a Nossa Senhora eram unanimidade.

Incontestável milagre.

Obviamente, minha mãe, católica como era, estava misturada à multidão, contando continhas no seu terço de prata, essas continhas reluziam, de tanto serem contadas e rezadas e esfregadas. Estava ensopada, banhava, lavada, de alma; o talco Pompom, que ela dizia cheirar a bunda de neném, deixava umas listras brancas no pescoço, se escondendo por debaixo daquelas fofas papadas. Ah, que sutileza de mulher. Dividiria até o último caroço de arroz ao meio, se fosse para dividir a fome com outro. Mas nunca tinha precisado fazer isso, apenas pequenos apertos, são as vantagens da vida espartana, nunca falta nada.

Vamos a homilia.

“Irmãos e irmãs... (soluçou) hoje Nosso Senhor mandou um milagre... que todos aqui estamos presenciando. Todos banhados por uma chuva divina, que tanto precisávamos,... nos dar coragem... (soluços)... faremos um marco com as pedras que todos carregaram sobre a cabeça, para registrar o milagre. Todos podem ir para casa, de alma lavada... permaneçam vigilantes até meia-noite, em oração, agradecendo... amanha, as 08h00, rezaremos uma missa de ação de graças. O povo que veio da roça, dirijam-se à Casa Paroquial, para abrigo; tentaremos providenciar um sopão, para diminuir a fome de muitos; pedir jejum, seria demais, mas para os que se sentem bem, façam-no, Ele merece”.

Estava em casa, já com roupa seca, quando minha mãe chegou, ensopada, pois ainda chuviscava e a noite começava a dar seu ar da graça, com uma leve brisa fresca. Minha mãe foi direto pro quarto, dizendo que iria ficar em jejum e não queria ser incomodada. A chuva começou a engrossar e se arrastou noite adentro.

Pela manhã, um cheiro molhado no ar, ah, que perfume agradável; qualquer perfume mais a felicidade, é uma soma incontestável. O céu com grossas nuvens, mostrava um céu há tanto tempo imutável. O sol brincava de esconde-esconde com as nuvens, e a brisa era a supervisora daquela brincadeira infantil. Cheiro de terra molhada; logo as babujas dariam o ar da graça, e o verde explodiria em uma semana.

Minha mãe saiu cedo pra missa dominical, pois disse que rezariam o terço antes da missa e não queria também ficar de pé, pois a igreja estaria superlotada naquela manhã; tanto estava que a missa foi outra vez campal; e vem mais chuva, pois se cansaram as nuvens e sol do esconde-esconde, era de se acreditar que o sol andaria cansado. Minha mãe chegou outra vez ensopada em casa, mas renovada, parecia a felicidade esvoaçada em uma borboleta.

Naquele dia, tive eu mesmo que correr atrás da galinha, pois o molho-pardo seria um almoço e tanto, para comemorar; não assisti a cena da matança, mas a galinha estava uma delícia. Machuquei o joelho, numa manobra esperta da galinha; mas ela deu azar, caí em cima dela.


domingo, 19 de outubro de 2008

Por que não posso editar?

Brincadeira não! A Elza me mata de rir! Mas tem razão, como usuária, ela tem razão. Ela começou a me mostrar na tela do computador uma página escaneada, do qual ela comentava... "poxa, eu sei que é uma página escaneada, sei que não posso editar, mas, olha, não faz o menor sentido! olha pra tela e me diz se não é tudo a mesma coisa, texto! Por que eu não posso editá-la então!? vocês são todos complicados, conhece alguma coisa que leia isso e transforme em texto?". Fiquei encafufado, mas comentei que havia uma tecnologia chamada OCR, que interpretava, por casamento de padrões, e tenta transformar em texto... na maioria das vezes ele consegue. "Eu sei disso, nunca usei mas já li sobre isso, instala depois e me mostra". Não sei por que ela acha que eu entendo de computador, principalmente de Windows; ela já me acha diferente por que eu uso Linux. "Por já conhecer Linux, tem obrigação de saber windows (?!)". Bom, voltando a conversa do texto e todos já entenderam o que eu queria; quero escanear um texto de uma página e sair editando. Vou procurar e, se achar, edito aqui. Ah, a fonte de edição e tamanho tem que ser a mesma da página escaneada! Fui!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

É Nascido...

Eram seis horas da tarde; domingo. Pleno verão; mês de janeiro. Depois falo por que sei aquelas horas. Durante o dia tinha chovido bastante e, no sertão do Piauí, uma chuva forte, todos os riachos enchem com uma velocidade impressionante. No resto de tarde, ainda tinha resquícios do temporal; coriscos1 esparsos, céu de escuro profundo no horizonte, nuvens ainda carregadas. Um vento suave entrava pelas frestas dos caibros e telhas, um cheiro gostoso de chuva, de mato molhado. A cada corisco, o chão tremia, a claridade surgia intensamente de todos os lados, como a alumiar bons dias vindouros; de fato. Essa não iria ser uma noite qualquer.

Ele, todo acabrunhado, pois este era o primeiro; nervoso e alegre; alegria nervosa. Coração saltitando na goela; uma “caninha” de vez em quando aliviava, mas já o deixava bêbado. Bêbado de alegria e de cachaça também. Os cafés saiam um atrás do outro; amenizava o álcool e o deixava desperto; e mais nervoso – cafeína. Manter o fogão a lenha aceso, não era tarefa das mais fáceis. Alguns gravetos e uns pedaços de marmeleiro e sabiá "aqueciam-se" amontoados ao redor do fogão; estavam secando. O bule de ferro esmaltado, verde, ficava ao lado da boca da chapa; mantinha o café aquecido. Quando se queria o café, dava uma assoprada na brasa, depois umas abanadas, com um velho abano de palha de carnaúba, com as pontas esgarçadas..., aguardava um pouco... colocava um gravetinho... uma chama aparecia meio desconfiada, mas já ajudava; depois, café quentíssimo. Quando acabava o pó de café, o que aconteceu, era preciso bater uns grãos torrados no pilão. Esses grãos de café, eram torrados com rapadura numa grande panela de ferro. Quando eram retirados da panela, logo endureciam, grudados pelo melaço da rapadura. O "grude" que ficava na panela, jogava-se uma água e, daí era feito um café tão forte, que era conhecido como sangue de peba2.

A casinha era pequena, paredes de adobe, caiada por dentro e por fora. Uma salinha, uns tamboretes, com o tampo de couro cru. O quarto, era menor ainda; havia ao lado do quarto um outro, menor, onde era posto as espigas de milho e uns sacos de feijão com areia; isto evita os bichinhos que adoram feijão cru. Depois era só bater numa urupemba3 e cozinhar.

A cozinha, ficava contígua à sala; móveis na casa? Até o momento, duas redes, uma panela, o tal do bule, umas colheres já meio tortinhas, dois pratos de ferro esmaltado em branco, com as beiradas azuis, e umas lascas de esmalte faltando. Duas canecas de plástico, meio amareladas pelo uso do café - às vezes leite. Um pote de barro numa prateleira, água já decantada – o fundo do pote tinha barro – da água do riacho. O chão da casa, era de barro batido com um cepo; usava-se um surrão4 jogado no chão, e batia-se em cima dele, para socar o barro; antes era salpicada água, para não levantar poeira. Ficava o desenho do surrão no chão; uns losangos. Nas paredes, se se olhasse com cuidado, se percebia uns buraquinhos. Eram casas de maribondos, uns que fazem esse tipo de casa em paredes. Não incomodavam ninguém.

Um quintal com umas galinhas soltas, esgueirando-se nas beiradas da casa, preparando-se para dormir; todas com as penas ainda meio molhadas. Uns piados de pintinhos, escondidos sob as asas de algumas delas. Talvez com frio! Havia um cercadinho coberto com palha, e alguns "capões cevados". Cevados, por que era socado milho cozido goela abaixo, com o dedo, e arrastando goela abaixo com a mão, para não entalar o bicho, até ficar com o papo "caruçudo"5. Engraçado, não lembro de frango com indigestão, mesmo com essa sobrecarga alimentar. Esses capões seriam abatidos, para fazer caldinhos e sopinhas, enquanto de resguardo. A sentina6, era atrás da cerca do quintal mesmo; para limpar as partes, usava-se sabugo de milho. E olha que limpava direitinho! Talvez ficasse um pouco ardido. Quando não havia sabugos, usavam-se as primeiras folhas ao alcance da mão... quando era urtiga..., danação!

Zé saiu para fazer um cigarrinho de palha. Pegou o rolo de fumo de corda, foi até o quartinho, escolheu uma palha da espiga de milho, foi ao alforje de couro e procurou a faquinha já carcomida de tanto ser amolada, arrastou o banquinho para fora da casa e começou a cortar em tiras bem fininhas o fumo, aparando com uma mão; depois macerou e enrolou na palha de milho. Foi ao fogão, pegou um tição, acendeu o cigarrinho e deu gostosas tragadas. Voltou a sentar no tamborete do lado de fora. A noite já se achegava. Pensava. Amanhã vai ser um dia diferente... Um relâmpago! Um grito vindo de dentro da casa, do quarto.

- Zé Adauto!

- Que foi Raimunda?


- Levei um susto com o "truvão"7 e senti uma fisgada forte no "pé da barriga" - Era agora. Agora a coisa começava para valer. Estavam somente os dois e quando ele chegou de tarde todo encharcado, a mulher já havia alertado sobre essas "fisgadas".


- Que faço Raimunda?


- Chama a "Madim Rosinha" - Madrinha Rozinha era uma senhora rechonchuda, tia do Zé. Criava-o desde os 12 anos; era filho de uma irmã sua. Correu a sua casa, ficava quase do lado. Encontrou-a, sentada, jantando.


- Padim Bubú, "Madim" Rozinha a Raimunda começou a sentir "as dor do parto". Vamos lá que ela ficou sozinha.

Lentamente, o velho pegou a corrente da qual pendia um relógio de bolso; de prata. Consultou as horas e foi anotar no caderninho capa de couro, onde tinha já anotado, um monte desses eventos.

A dita casinha ficava a umas 100 "braçadas" da pequena sede da fazenda. Quando o Zé veio para a fazenda, foi imediatamente adotado como um filho. Recebia todas as atenções e era cercado de mimos. Dona Rozinha e seu Chico Salles, não tiveram filhos. Então eles já esperavam o "neto" com a igual ansiedade da jovem futura mãe.

Entraram os dois apressados na casinha. Já foram ouvindo um outro grito lá dentro. Agora começaria uma verdadeira maratona para o Zé.

- Zé, vai correndo chamar a "cumade" Curica! – gritou dona Rozinha.

- Comadre Curica, era o apelido de dona Antônia, parteira da região. Todos os moleques e molecões a chamavam de "cumade Antonha".

Zé pensou nas duas léguas8 de ida e nas duas de volta. Dona Antônia morava na localidade de Lagoa da Descoberta e, fora os partos que fazia, vivia de fazer chapéus de palha. Fazia uns chapéus diferentes, pesados, pois a palha era trançada e depois dobrada, fazendo umas escamas; bonito chapéu.

Selou a égua numa correria e logo já estava cavalgando. Não se esquecera da "peixeira"9 já enfiada na luva da cela; nunca se sabe nestas paragens a noite. Ele não sabia o que o aguardava a frente. Começou a chover forte novamente e a trovejar; aqueles relâmpagos clareavam tudo ao redor; Tinha medo dos raios, pois vira um caindo no oitão10 da casa, ao lado da sua rede, quando era menino. Foi um corte na alma que ainda não cicatrizara.

A sede da fazenda ficava num morrete, com dois riachos, um de cada lado. Os riachos não eram tão pertos da casa... Um com nome esquisito, Pinguela e o outro Varjota. Este, o Zé teria que atravessar agora. Quando começou a descer, na escuridão da noite, ouviu o farfalhar da água pelas patas da égua. Pensou. "Vixe Maria, a Varjota tá na vazante". Ou seja, tem um riacho caudaloso para atravessar pela frente. Avançou devagar e pensando nas quantas vezes que teve de atravessar os "burregos"11 na cabeça, quando as ovelhas ficavam presas do outro lado; se não buscasse os filhotes, eles seriam arrastados pela correnteza, pois as danadas das ovelhas cismavam em atravessar a nado o riacho. Uma vez ou outra, uma se afogava.

Na vazante, ficava uns dois palmos de água na várzea até chegar ao riacho, era um espelho aquático ao luar, quando tinha; agora era como ver a égua meter as patas no breu. Pensou em como convencer a égua a atravessar o riacho; sabia que o bicho ia refugar de primeira, mas com insistência, ela iria nadar até o outro lado. Pior é que depois de atravessar, teria que ir no lombo da égua, no osso, como se dizia, pois a sela, para não encharcar, ficaria num galho de árvore – tinha umas cascavéis, que adoravam ficar no marmeleiro, quando no chão só tinha água -, e na volta teria que pegar essa sela com cuidado. Cascavéis! Lembrou que uma vez um vaqueiro amigo dele, tinha feito o mesmo, justamente para atravessar a Varjota, e quando voltou, pegou a sela com pressa e jogou no cavalo. Quando chegou em casa e foi pendurar a sela, uma cascavel caiu no chão, já morta, esmagada na luva da sela. Foi sorte. Uma "mordida" na virilha é fatal! Virou lenda.

Iria levar consigo, somente a esteira de palha, pois ir no "osso", era contar com assaduras na certa depois. Tirou a roupa, ficando somente de calção de algodão - que ele gostava "de criar o bicho meio solto!". Fez uma "rudia"12 com as roupas e prendeu na cabeça, passando com o cinto pelo queixo. Tudo pronto, deu umas palmadas na égua, a bicha deu umas espirradas, mas começou a entrar na água e logo estava nadando pro outro lado. A correnteza a arrastava um pouco, mas ele a esperou "dar pé" do outro lado; viu o vulto chegar do outro lado e o barulho da égua sacudindo o pelo e espirrando – éguas espirram!. Foi um pouco mais arriba pra tirar a conrrenteza e foi entrando, até a água chegar no peito, então começou a nadar "em pé". Zé se gabava dessa sua habilidade;,nadar em pé. Aquela travessia, quanto mais caudaloso o riacho, mais fascinante era.

Montou na égua e saiu no galope no "osso". Na travessia, o "habilidoso" Zé, deixou escapar a esteira. Depois a encontrou com o remanso13 do riacho; atravessou montado, com a água no peito da égua. Apercebeu-se também, que com todo aquele furdunço, os efeitos da cachaça, tinham passado... ao longe já avistava umas luzes de candeeiro, frestando as portas e janelas; era a Vereda. Quantas festas já tinha vindo neste lugar.

Zé Adauto tinha um conjunto de forró. João Tetô no pandeiro, Corinto no surdo, Antonio Marcelino no triângulo e João Simão no bandolim. Já eram até conhecidos na região. Forró no Córrego, Saco do Elpídio, Sertão-de-dentro, Pega-Bem, Frexeiras, Cupins, Lagoa da descoberta, Boqueirão, Bangüê, ...

- Zé, aonde "tu rái hôme"? – Perguntou um amigo, que estava ao peitoril14.

- Vou buscar a "cumade Antonha".

- Tua “muié rái discansar"15? – empertigou o outro.

- Tá c'uas dores... vou indo. Zé sabia que ainda tinha um rio a frente. O rio Vargem Grande. Esse não dava para atravessar a nado com certeza; tinha uma correnteza muito forte. Tinha que deixar a égua do lado de cá. Ia atravessar uma pinguela; duas toras de árvores, fixadas com tábuas. Acontecia de, algumas vezes, o rio levar a tal da pinguela. Hoje bem poderia ser um daqueles, né?

A pinguela ainda estava lá, mas com a água já passando por cima. Tinha que ser rápido. Amarrou célere a égua num arbusto; pegou a calça e camisa que tinha servido também de esteira no lombo da égua; toda engelhada. Mas era noite e aqueles detalhes pouco importava pro Zé agora. Vestiu a roupa, arregaçou as calças e cruzou a pinguela. Mais na frente, já num ponto alto da estrada, divisou na escuridão o tênue espelho d'água do Açude do Governo. Governo, por que fora construído pelos militares. Quantos bodós já tinha pegado nesse açude. Metia as mãos numas locas dentro d’água, quando qualquer coisa se movesse, se tentava pegar. O muçum era fácil diferenciar; era literalmente uma cobra lisa! Dava uma sensação esquisita, ele escapando por entre os dedos... mas o bodó era áspero; mas era esperto também! Bodó assado, humm!

Dona Rozinha estava assustada, nunca havia presenciado um parto. Já tinha ouvido os gritos, mas nunca presenciara. Desta vez corria o risco de fazer o parto. Era o que a preocupava. D. Maria Cruz entrou ofegante e disse que o "cumpade" Bubú a tinha ido avisar. Dona Rozinha, suspirou fundo... que alívio! Mas acontece que, D. Maria Cruz não era parteira e, começou a fazer perguntas para a comadre Rozinha; E agora? Bom, pelo menos agora ela não estava sozinha. Raimunda, dava gritos lancinantes! De repente, D. Maria Cruz viu uma mancha debaixo da rede da Raimunda. Pegou a lamparina e foi verificar. Era sangue! O Sangue as gelou. Mas o instante a enganou; era a bolsa d’água que havia se rompido.

- O que é? – inquiriu Dona Rozinha.

- Sangue.

- Sangue? Tá nascendo! Traga aquele cepo! – O tal cepo era um toco de madeira serrada, como uma cadeira baixinha. Forrou com algumas dobras de lençol, e tiraram a Raimunda da rede. Uma luta! Raimunda era ela toda uma barriga – esse moleque vai ser grande; pensava. Com dificuldades, Raimunda sentou no cepo e abriu as pernas, para facilitar a passagem; forraram o chão com mais alguns lençóis; D. Maria Cruz correu para pegar a bacia de alumínio na cozinha; reluzia, de tanto zelo de Raimunda pela bacia. O primeiro alvo de D. Maria Cruz, foram as garrafas de pinga do Zé. Ele havia comprado uma dúzia; para o mijo do menino, dizia. Pegou uma garrafa, abriu com um abridor de garrafa feito de madeira e um parafuso de cabeça grande na ponta; aquilo agarrava na tampa da garrafa e sacava-a. Colocou uma meia garrafa na bacia e começou a limpar a tesoura, outrora usada para cortar cabelo também. A tesoura seria usada para cortar o cordão umbilical. Dona Rozinha pegou alguns capuchos de algodão, descaroçou-os . Seria usado para fazer um fio grosso, para amarrar no umbigo. Nas folgas das contrações, Raimunda pensava no "meu bibelô"; pensava nas papinhas de goma, de puba, que iria fazer – e enfiar na boca do "bibelô" com um dedo...

Zé chegava à casa da comadre Antônia; ela já havia acordado, pois o Zé de longe já gritara: Oh de casa! É parto! Era perigoso chegar de noite nessas paragens; ao menor ruído, eles pegam numas espingardas "de ouvido", e ficam na espreita. Então é melhor ir avisando de longe.

- Quem é? Zé Adauto?... – Comadre Antônia era conhecida da família, pois sua filha Francisca, morava com Dona Rozinha desde pequena.

- Sou eu "cumade" Antônia, o Zé, da tia Rozinha.

- Que foi, tá nascendo teu "minino"?

- É!... saí de lá com a Raimunda com as dores; e já tem mais de uma hora. Demorei muito porque a Varjota tá "vazando"...

- Vixe Maria, tomar banho nesta hora! Também, com esse toró.

- E tem um remanso grande também; mas a senhora passa na égua e eu vou andando... ou nadando.

- E no riacho?

- Eu lhe atravesso segurando o braço.

- Olha lá, hein Zé! Então vamos.

Comadre Antônia era muito querida na região pela sua simpatia, mas mais, pela sua fama de benzedeira. Qualquer íngua... chama a comadre Antônia. Ela chegava com uns galhinhos de não sei o quê, metia numa baciazinha de água, respingava no enfermo... no outro dia tava bom! Contavam ainda, que um dia, dormindo na rede caiu do teto – de palha -, um rolo de cascavéis – uma ninhada! No outro dia quando percebeu algo esquisito debaixo das costelas, pensou que fosse o lençol dobrado, mas...! Não acreditava no que os seus olhos viam! Chamou pelo marido; este verificou as costas e costelas de comadre Antônia; estavam cobertas de picadas das cascaveizinhas! Ela não sentiu uma dor na unha! Desde esse dia, contam, se uma cobra cruzar com ela pelo caminho, basta um olhar e, a cobra morre na hora! Virou lenda!

O intervalo entre as dores, começava a diminuir, quando comadre Antônia entrou já toda despachada, tomando conta da situação. A roupa ainda toda ensopada. De pronto, elogiou a habilidade do nado do Zé; aquilo massageou o tão modesto ego do Zé...

Comadre Antônia fez umas perguntas para a Raimunda, para as outras comadres; perguntou pela tesoura, pelo cordão de algodão que deve ser feito na hora. Tudo estava arrumado; começou a dar umas defumadas na casa, queimando uma casca de uma árvore, que solta uma fumaça cheirosa; ficou dias, aquele cheirinho. E nada... nada de menino. Isso já era por volta da meia-noite quando comadre Antônia chamou o Zé.

- Vá ao Pé-de-Serra, no Lauro, e vê se ele tem Parteína... e traga também os aparelhos.

Comadre Antônia começara a se preocupar, pois não se via dilatação nenhuma; a injeção iria ajudar nas contrações, somente. Pensou em passar a gillete; um pequeno corte a sangue frio; muito rápido, na parte de baixo. Lavou bem a lâmina e foi à prática; fez uma incisão tão rápida, que nem Raimunda sentiu; provavelmente porque as outras dores, seriam maiores. Começou a sangrar. Era sinal de que o menino ia começar a sair. E o Zé desta vez foi rápido, pois logo chegou com a injeção e as seringas, com suas agulhas grossas; ferveu tudo rapidamente e, comadre Antônia mesmo aplicou. Agora Raimunda sentiu e resmungou.

- Já não basta a dor do parto? – E Raimunda se esperneava de dor. Dona Rozinha e Dona Maria Cruz estavam hipnotizadas com tudo! Não falavam uma palavra! Suavam somente!

O Zé na sala, na cozinha, no quartinho ao lado, ouvia tudo calado; só pensava. Amanhã, se Deus quiser, vai ter forró o dia todo; foi pegar a sanfona e sentou-se num tamborete, do lado de fora da casa; tocou Asa Branca majestosamente; arrastado... lento... como saboreando uma sensação única. Afinal o primeiro filho só nasce uma vez!

Pensava que horas seriam; mas ninguém ali tinha relógio; só "padim" Bubú. Mas não iria lá só para perguntar as horas; olhou pra cima; mas tudo escuro, não tinha estrelas, só nuvens negras. Mas os galos já começavam a cantar; era em torno das quatro da manhã.

E nada. Já tinham pedido para ele parar de tocar, pois a Raimunda se incomodou com o barulho. Perguntou para a comadre Antônia.

- “Cumade”, vai demorar ainda pra nascer?

- Tá tudo difícil; o menino ainda nem apontou a cabeça...!

Dona Rozinha revezava com Dona Maria Cruz, sustentando a Raimunda por trás. Esse trabalho cansava... Zé voltou pro tamborete do lado de fora; o mundo começava a sair de um escuro negro para um azul escuro... principiava a aurora. De repente!

- A cabeça, a cabeça! Começou a apontar a cabeça! Raimunda já quase desmaiando de tanto esforço durante toda a noite; banhada de suor, garganta seca, horas de incertezas, angústias... o medo enfim.

- Faça mais força! – gritava comadre Antônia. Mas de onde tirar forças? Foram exauridas durante a noite em claro. Dona Rozinha e D. Maria Cruz tinha saído do estado hipnótico e entravam agora num estado de espanto contínuo de queixo caído e tudo.

- Saiu a cabeça... agora vem! Saiu! – E no chão de barro batido, coberto com lençóis, já ensangüentados, se acomodou o primeiro membro direto da família do Zé. Levou a primeira palmada, de muitas que ainda levaria na vida. O choro saiu com vontade; começou a respirar!

- É homem! - Zé ouviu, olhou o céu novamente, já clareava e galos já haviam parado de cantar; eram cinco e tanto... aquele chorinho lhe enchia o coração de alegria, uma alegria diferente, um filho macho! Correu pra dentro e pegou um foguete e foi soltar. Era costume avisar quando um nascia um filho, soltando um foguete de um tiro para menino homem e, dois foguetes, mulher.

O velho, já estava acordado - não dormira direito – ouviu o primeiro tiro do foguete... esperou um segundo... nada; pegou o relógio de bolso, consultou as horas... cinco horas da manhã. Foi ao caderninho e anotou: “Nasceu hoje as cinco horas da manhã, dia 30 de janeiro de 1966 o primeiro filho de José Adauto da Silva. Nasceu com saúde; não sei como se chamará.” Foram dez horas de parto, sofrimento... pensou. Depois anotaria o nome do “netinho”. Já tinha um em mente...

- Zé, vem ver teu filho! – chamou comadre Antônia. – Zé entrou desconfiado, olhou primeiro para a Raimunda, e teve a petulante idéia de perguntar...

- Como tá tu “muié”? – Raimunda era só sorrisos, doloridos sorrisos, mas sorria.

- Estou melhor, doeu muito... também, olha o tamanho do bichão! – Zé via nas mãos de comadre Antônia, o filho; seu filho.

- Ei rapaz! Olha eu aqui! – O moleque desabou a chorar.

Raimunda disse que queria dormir um pouco, enquanto todos iam fazer a limpeza de tudo. O moleque foi colocado numa rede-de-meio de loninha listrada, azul com branco, com o fundo já remendado. As cabeceiras da rede – punhos – eram de uma rede velha; daqui a alguns dias estaria com o fundo todo amarelado de tantas mijadas... uma teoria minha, diz que esse ângulo de quase 45 graus da rede, influencie no formato da cabeça da criança, aparecendo aí o que chamamos de cabeça chata; tão típica nos nordestinos.

Dona Carlota chegou, talvez umas nove horas da manhã, vinha ver o neto; não era o primeiro. Ela já tinha para mais de uma dezena de netos. Veio dar aquela ajuda que somente a mãe pode dispensar, além do conforto sentimental que a filha sente, vendo a presença e tendo os cuidados da mãe. Agora teria uns trintas dias de resguardo da filha, que não podia se levantar pra nada, somente para as necessidades, devidamente feitas num penico, dentro do quarto. Comia uma comidinha sem sal, com pouca gordura; geralmente dos tais capões; repouso absoluto, até o banho era dentro da tal bacia, com água morna; o umbigo do menino era limpo com “cachaça pura”, que era aquela primeira cachaça que sai do alambique; álcool puro! O sogro do Zé, tinha um alambique artesanal; mas o Zé tinha que comprar.

Não demorou muito, chegou a turma do conjunto, cada qual com seu instrumento debaixo do braço; uns vieram a pé. Disseram que os riachos estavam na vazante, ou seja, estão baixando. Zé tinha pedido pra sua Tia Rozinha, matar dois capões. Esses capões, além de serem “socados” com milho cozido, também eram “capados”. Sim! Capados! Cortava-se o frangote abaixo da cloaca com uma faquinha bem amolada; metiam-se dois dedos e arrancavam os dois testículos, localizados no espinhaço do bicho, tendo que atravessar o frango inteiro até no espinhaço. Os testículos são tamanhos de azeitonas, das grandes. Para fechar o buraco no frango, costura com linha normal de costurar camisas e vai dando uns nozinhos; tudo a sangue frio. Depois para cicatrizar, cinza! Alguns não resistiam à tamanha tortura... e condenados à morte de qualquer maneira. João Tetô já estava impaciente com o mijo do menino que não saia.

- Zé, cadê a danada?

- Vou pegar. – e em poucos minutos, somente no afinamento dos instrumentos, a garrafinha foi esvaziada; a vizinhança começou a chegar. Não pararam mais de tocar até o anoitecer. A tarde o sol deu o ar da graça, e o finalzinho do dia era realmente fascinante, com as nuvens rajadas de vermelho, roxo, amarelo, avermelhado. Os homens, esses, todos bêbados... de alegria. Finalmente, Zé lembrou de uma coisa, esquecera a sela no galho lá no riacho. Na correria e,comadre Antônia dizendo que ia o resto a pé... veio puxando a égua... e a sela ficou lá! Que as cascavéis durmam mais uma noite sossegadas!

- O velho voltava ao caderninho de anotações e anotava: “É nascido... 30 de janeiro de 1966, primeiro filho de José Adauto da Silva, com o nome de Cláudio José Cardozo da Silva, em homenagem ao meu grande amigo Claudionor Fontelenes”.



Cláudio Cardozo, Rio de Janeiro, 23 de março de 2003.

Dedico ao “Seu” Zé Adauto, meu pai, in memoriam, e dona Raimunda, minha mãe.

PS. quando escrevi esse conto, meu pai ainda era vivo (faleceu a quatro dias atrás) e não tive oportunidade de mostrar à ele o conto finalizado, afinal foi ele mesmo quem fez a narrativa.


1 Relâmpagos, raios, trovões.

2 Tatu-bola

3 Peneira de palha

4 Saco de palha de carnaúba, usado para guardar ou transportar cereais

5 em caroços.

6 Latrina

7 Trovões

8 Medida itinerária; equivalente a cerca de seis quilômetros.

9 Faca.

10 Parede lateral de uma casa

11 Cordeiro de um ano ou menos

12 Rodilha; rosca de panos para assentar fardos que se transportam na cabeça.

13 Água de rio estagnada, sem movimento sensível.

14 Parapeito.

15 Dar à luz.